Acidentes por quedas de idosos

Saúde O objetivo deste texto é contribuir para a prevenção de quedas no idoso, que são uma ameaça real à capacidade de viver de modo autónomo e constituem um problema sério de saúde pública. Por José Carlos A. Costa.

A incidência de quedas é muito comum em pessoas idosas, facto este que afeta, anualmente, um terço da população idosa. Os traumatismos e fraturas ósseas decorrentes de quedas podem limitar a pessoa nas suas atividades de vida diária, bem como o seu bem-estar físico e mental. A queda pode ainda repercutir-se nos cuidadores familiares, gerando ansiedade, principalmente quando a preocupação está relacionada com uma nova queda, tornando os familiares superprotetores, diminuindo assim a autonomia da pessoa idosa.

Envelhecimento e quedas

Uma em cada 10 quedas causam lesões graves, nomeadamente fraturas do colo do fémur. As quedas perfazem cerca de 10% das entradas nas urgências hospitalares, das quais 6% determinam internamento.

É necessário promover a segurança, autonomia e independência do doente e do idoso, diminuindo ou minimizando os riscos de quedas, através do aconselhamento de alterações a introduzir no seu ambiente (para muitos idosos, a casa pode ser um local perigoso), desenvolver estratégias de equilíbrio adequadas e eficazes, aumentar os limites de estabilidade, diminuir o medo de cair e incentivar a atividade no seu dia-a-dia. Para os referidos ganhos serem obtidos serão necessários exercícios específicos, de dificuldade progressiva, de modo a manter ou aumentar a autonomia e segurança do doente e, consequentemente, conseguir uma melhor qualidade de vida.

Segundo a OMS, o número de pessoas com mais de 65 anos vai duplicar nas próximas cinco décadas, o que levará a que as doenças associadas ao envelhecimento assumam proporções importantes, como as quedas. O envelhecimento é um processo que se carateriza pela degradação natural do organismo, registando-se alterações a vários níveis, nomeadamente na diminuição da força muscular, sobretudo nos membros inferiores e, em especial, nas articulações tíbio-társicas e pés, diminuição da “flexibilidade” muscular, aparecimento de artroses e alterações posturais (nomeadamente cifose dorsal, que modifica a posição nos espaços intervertebrais), na diminuição da tolerância ao esforço, no aparecimento de neuropatias periféricas, reflexos mais lentos, estratégias posturais desorganizadas; a diminuição da acuidade visual, da capacidade de acomodação visual, da perseguição ocular de alvos que se desloquem a velocidades uniformes, da nitidez dos contrastes, da incapacidade de adaptação ao escuro e, em certos casos, de alterações da profundidade do campo visual; alterações na sensibilidade vibratória, diminuição da sensibilidade da planta do pé, diminuição da capacidade de detetar a mobilização passiva do pé e aumento do tempo de resposta dos músculos; dificuldade na coordenação motora (que obriga a movimentos mais lentos) e de concentração, que se traduzem na dificuldade em realizar simultaneamente duas ou mais tarefas (por exemplo conversar e caminhar). Perante a conjugação das múltiplas alterações decorrentes do envelhecimento, a possibilidade de uma queda torna-se inevitável, instalando-se medo de cair logo após a primeira queda ou ameaça de queda.

Fatores intrínsecos

das quedas

Os fatores de risco padronizados ligados às quedas são: idade superior ou igual a sessenta e cinco anos, alteração do estado mental (agitação psicomotora e sonolência), história de queda anterior, uso de sedativos ou analgésicos, diminuição motora ou funcional de membros, falta de equilíbrio ou da marcha, diminuição da visão e audição, défice cognitivo, jejum prolongado (superior a três horas), deficiência dos membros, urgência urinária ou intestinal, pós-operatório de cirurgia ortopédica de membros inferiores ou coluna, condições do ambiente, nível de consciência diminuído, sinais e sintomas neurológicos e uso de medicamentos que alteram o raciocínio (hipnóticos, ansiolíticos, benzodiazepínicos, antiparkisonianos), diuréticos, anti-hipertensivos, neurolépticos, antidepressivos, antihistamínicos, polifármacos (associação de quatro ou mais fármacos diários).

Fatores de risco

extrínsecos das quedas

Salienta-se a fraca ou má iluminação da casa (especialmente no período noturno, entre o quarto e a casa de banho), superfícies irregulares ou escorregadias, tapetes soltos, escadas íngremes ou irregulares, objetos no caminho, vestuário e calçado inadequado, móveis inadequados, inexistência de corrimão, especialmente na banheira.

As quedas são uma das causas predominantes de mortalidade e morbilidade do idoso. As suas consequências vão desde lesões mínimas a patologias graves, que provocam drástica diminuição da funcionalidade, independência e qualidade de vida, e conduzem, por vezes, à morte. Todos estes fatores traduzem-se em dificuldades no dia-a-dia do idoso e contribuem para a diminuição do seu nível de atividade, tornando-o progressivamente mais incapacitado e dependente, o que traz como consequência quadros de depressão, isolamento e solidão.

O aumento da população idosa e, consequentemente, das quedas e suas complicações, tem agravado as implicações sócio-económicas e a necessidade de intervenção, na área da Geriatria, visando a identificação dos fatores de risco de quedas e a sua prevenção.

Prevenção de quedas

no idoso

Na prevenção de quedas, o doente ou pessoa idosa deve ser submetido a consulta médica, onde é avaliado/identificado o défice multissensorial. A avaliação inclui a identificação dos fatores extrínsecos de risco de queda, como as condições e caraterísticas da casa do doente, com quem vive, etc. É ainda importante a descrição e frequência das quedas e das ameaças de queda, bem como a história anterior relevante. O exame objetivo permite a identificação dos fatores intrínsecos do risco de queda, para os quais será orientada a intervenção. São avaliadas as estratégias de equilíbrio, o registo simultâneo das oscilações ao nível da anca e cabeça, eventuais desvios e o controlo motor a estímulos desequilibrantes.

Como evitar as quedas

– Desenvolver e aperfeiçoar as estratégias de equilíbrio mais adequadas e eficazes;

– aumentar os limites de estabilidade;

– reduzir ou, se possível, eliminar o medo de cair;

– incentivar a atividade e o dia-a-dia habitual;

– aperfeiçoar a segurança, autonomia e independência do idoso e, deste modo, melhorar a sua qualidade de vida;

– aumentar a segurança no lar, para que o idoso lá possa permanecer;

– enfatizar as consequências de possíveis quedas e fornecer orientações sobre autonomia e segurança.

É prioritário o idoso continuar a viver no seu meio habitual, realizar as suas atividades de vida diária de modo independente mas com a máxima segurança (identificação e eliminação de riscos extrínsecos de queda do lar) e não descurar os benefícios da atividade física.