Celebrar o quê?

A pergunta é legítima: Pretendemos celebrar o quê, quando nos atordoam os ouvidos com as comemorações dos cem anos de República? Sim: importa questionarmo-nos se temos razões para festejar o que quer que seja; se os benefícios de um regime democrático são propriedade da República; se a estabilidade política e o bem-estar social brotam exclusivamente dos ideais republicanos…

A nossa República nasceu directamente da cartilha francesa do final do século XIX, confessa e voluntariamente violenta e perseguidora. Os ideais de liberdade, igualdade a fraternidade tornaram-se justificação para “depurações” arbitrárias. Como a neutralidade do Estado se transformou em desrespeito e tentativa de eliminação da liberdade de pensamento e confissão religiosa, submetendo toda a sociedade à ideologia do Estado.

Não podemos sequer esquecer que, nas repúblicas, se têm sucedido, muitas vezes, ditaduras, civis e militares, que nada ficam a dever, em tirania, aos absolutismos monárquicos mais exacerbados. Ao que consta, também fizemos essa experiência.

E ninguém tem dúvidas de que, chegado ao poder, qualquer partido tece redes de influências e fabrica edifícios legais que lhe permitam perpetuar-se no domínio do país, favorecendo restritas aristocracias dos seus clientes.

A definição laica do Estado foi seguramente um bem. Com a reserva de que foi mal interpretada e continua a ser mal realizada. O despertar da sociedade civil para as suas responsabilidades e competências fez justiça à maioridade do povo, ainda que a integração das diversidades não seja sempre um caminho fácil. E o princípio da subsidiariedade do Estado, que deveria abrir caminho ao pleno exercício dessas competências, tem-se manifestado um fracasso rotundo na vida do país.

Portanto: razões para celebrar o republicanismo que nos tem calhado em sorte não as encontramos. Motivos para rejubilarmos com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade? Também se vivem em regimes monárquicos, com melhor qualidade do que aquela que nos é dado viver. Aliás: se os cristãos tomarem a peito o Evangelho, suplantam qualquer república.

Por mim, celebro apenas a esperança de que a alma portuguesa é capaz de joeirar todos os oportunismos políticos e se impor a todos esses desvirtuamentos de organização política e social.