D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, aborda o actual ambiente político de “crispação”. Sobre a lei do casamento homossexual, entretanto aprovada no Parlamento, considera que mudar a compreensão milenar do casamento pode ter “consequências gravíssimas no futuro”
CORREIO DO VOUGA – 2009 foi um ano com três actos eleitorais. Eles contribuíram para fortalecer Portugal?
D. JOSÉ DA CRUZ POLICARPO – Os actos democráticos são, em si mesmos, uma expressão importante da convivência democrática. Penso que decorreram com boa participação, com debates de ideias.
Pessoalmente sou sempre sensível ao lugar que se dá a uma certa agressividade no discurso durante as campanhas eleitorais, em desfavor de um debate muito mais sereno de ideias. Apesar de tudo ele existiu e os portugueses votaram em liberdade e com uma participação maior.
A consequência mais difícil e mais exigente dos actos eleitorais é a coerência com as exigências da vida democrática, tanto dos que votaram como dos votados. Todos sabemos que o contexto actual é exigente. A minoria do Governo dá ao Parlamento uma intervenção e um poder que não tinha na maioria absoluta, o que traz aos representantes do povo no na Assembleia da República uma responsabilidade acrescida de porem sempre o bem de Portugal acima dos interesses partidários.
Percebe-se no horizonte da acção dos políticos a construção do bem comum?
Não podemos dizer que não! O problema é a definição do que é o bem comum para uma comunidade, a portuguesa, no momento concreto da sua história. E aí tenho sentido que não há acordos, nomeadamente na consciência do que é o melhor para Portugal. E era possível dar passos maiores nesse diálogo.
O instrumento principal da democracia é o diálogo: a negociação, o debate de ideias, o compromisso, o saber arriscar, o saber ceder em nome exactamente do bem comum e definir o que ele é. Não dar passos nesse diálogo é uma fragilidade da nossa democracia, que espero que o futuro corrija. O povo português, na riqueza das suas diferenças, merece mais!
Será necessário rever o equilíbrio e a distribuição dos poderes pelos órgãos de soberania?
A essência dos regimes democráticos é a autonomia dos poderes: legislativo, executivo e judicial. A autonomia não significa, no entanto, que não haja convergência, diálogo e debate.
(…)
A questão crucial do progresso democrático está na capacidade de definir o bem comum, na capacidade de diálogo, de serviço à Nação e de compreender o país que se governa, num debate que tenha mais profundidade cultural.
Contrariamente a esse objectivo, o debate político entre nós vai acontecendo num ambiente de crispação…
Tem períodos… A crispação faz parte do sistema! É humana. Mas o ambiente interpessoal dos políticos não é necessariamente o que salta na crispação de uma discussão pública.
Apesar de tudo isso se poder mitigar, não é daí que vem o mal ao país. O problema sério é o do diálogo com qualidade, da lucidez para ver o caminho que Portugal precisa e as prioridades que é preciso estabelecer…
Pessoalmente, não compreendo como, em momentos de grande dificuldade para Portugal, não sejam possíveis consensos maioritários sobre duas ou três questões, a concretizar independentemente dos governos serem de centro-direita ou centro-esquerda.
Que questões?
Em cada momento são variadas… Agora está muito em causa o endividamento público: merecia um consenso. Ou a questão da regionalização, que da primeira vez foi mal resolvida…
Existem condições de diálogo para levar esta legislatura até ao fim?
Responder que não a isso significaria dizer que deixo de acreditar na democracia. E não é verdade! Eu acredito no sistema democrático, com todos os limites humanos. Acredito até no esforço e na sinceridade da maior parte daqueles senhores, alguns deles com uma vida muito sacrificada (outros menos…). Acredito na generosidade dos principais fazedores da política.
Sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo, a opinião do Patriarca de Lisboa foi confirmada numa Carta às Comunidades Cristãs, onde afirma que a Igreja “usará os meios e os modos consentâneos com a sua missão” para travar leis que “ferem gravemente a compreensão cristã do homem e da sociedade”. Que meios são esses?
A grande arma da Igreja é a convicção através da palavra. O segundo meio é o diálogo, paciente, para o qual eu estou sempre disponível, como digo na Carta.
Diante de questões muito “quentes”, éticas, que tocam a consciência, os católicos que são muito contra correm o risco de ficar na plataforma política, de reagir só politicamente. O que é legítimo, no exercício da democracia. Mas o meio clássico de a Igreja estar na sociedade é o testemunho dos cristãos, a diferença marcada pela atitude que se tem diante das realidades e o diálogo com toda a gente.
Que comentário lhe merece o facto de esta iniciativa aparecer em contexto natalício? É infeliz?
Vejo mais a pressa em resolver isto rapidamente… Esta questão tem uma pressão internacional muito grande. Há um lobby muito forte, que se faz sentir no quadro da União Europeia.
O problema que está em questão não é a homossexualidade. Se a discutirmos, o discurso tem outros parâmetros. Neste momento está em causa a natureza do casamento. Que não é uma questão religiosa, antes cultural. As culturas milenares consideram o casamento um contrato entre um homem e uma mulher, que dá lugar a uma instituição, a família. Mudar esta compreensão milenar do que é a família na humanidade pode ter consequências gravíssimas no futuro.
Em conversa particular, considerei que se os homossexuais tivessem direito ao casamento eu seria o primeiro a defendê-lo… Mas creio que não têm direito ao casamento. Chamem-lhe outra coisa! A natureza está feita assim. E ainda bem!
Falou nesse lobby internacional. As questões éticas, de fronteira, vão-se sucedendo e constituindo-se em Direito. Até onde?
Não sei… Hoje um dos problemas da sociedade é que deixou de reagir a longo prazo, o que só se consegue apanhando a onda de profundidade, não de superfície.
No mundo moderno, pelo ritmo que adquiriu e pela comparação inevitável entre civilizações que a globalização nos traz, as pessoas vêem-se confrontadas com a mudança rápida. Aonde isso nos leva não sei. Mas acredito que haverá reacções de fundo e de profundidade. E acredito que o intercâmbio de civilizações terá influência.
A nossa sociedade está assente em ciência, tecnologia e defesa dos direitos, por vezes concebidos numa compreensão da liberdade sem responsabilidade. Tudo isto precisa de uma reflexão, do debate político alargado ao debate cultural, onde todos temos o direito e o dever de participar. Se isto será a degenerescência completa da sociedade, não sei. Espero que não, porque acredito nas ondas de fundo!
Infelizmente, a história mostra-nos que as grandes mudanças de correcção vieram com grandes crises de sofrimento, guerras ou outras. Que Deus nos dê a sabedoria de as fazer sem ser à força, provocadas por um grande sofrimento colectivo.
Que oportunidade constituirá a visita de Bento XVI a Portugal, em Maio próximo?
A visita do Papa é sempre um grande acontecimento. Portugal, desde a sua nacionalidade, tem uma relação congénita com a sede de Pedro, o que considero um dos baluartes mais significativos da nossa cultura católica. Com altos e baixos, mas sem nunca romper uma componente fundamental da fé dos portugueses: uma ligação muito forte à figura do Papa como sucessor de Pedro, seja ele quem for. Para nós, esta visita de Bento XVI é uma óptima oportunidade de, ele e nós, aproveitarmos o melhor possível a afirmação da Igreja nesta sociedade, que ainda não se esqueceu dela mas não lhe tem o amor que já teve!
Entrevista conduzida por Paulo Rocha,
da Agência Ecclesia. Versão integral em www.agencia.ecclesia.pt.
