Experiências de missão são sinal de comunhão

A Diocese de Aveiro tem enviado alguns jovens e adultos para experiências missionárias em África e no Brasil, através o Secretariado Diocesano da Animação Missionária e da ong Orbis. Na proximidade do Dia Mundial das Missões, o Correio do Vouga apresenta dois testemunhos dessas experiências. Seguem outros nas próximas semanas.

Escreve o Papa na Mensagem para o dia 24 de Outubro que a consciência missionária também se alimenta através da obra de leigos missionários. Quando Bento XVI apela ao empenho, “sem falsas ilusões ou inúteis temores, para fazer do planeta a casa de todos os povos”, é importante ter em conta que estas vivências são importantes para a comunhão eclesial e para que “o Evangelho seja fermento de liberdade e progresso, fonte de fraternidade, humildade e paz” na inter-culturalidade. Se podem ser benéficas para quem acolhe os missionários, são-no ainda mais para as comunidades que os enviam e para quem as protagoniza, como se pode ler nos testemunhos. “A cooperação de umas igrejas com as outras – escreve Bento XVI – é um testemunho de singular unidade, fraternidade e solidariedade, e torna credíveis os anunciadores do Amor que salva”.

J.P.F.

“Aprendi a ver a essência das coisas”

Liliana Peneda, 22 anos, de Cacia, enfermeira

Passou o mês de Agosto em Inharrime, Moçambique

O que mais gostei de ver e sentir foi a simplicidade das pessoas e a forma como nos acolheram. Apesar das condições em que viviam (a grande parte em palhotas sem água nem luz, sem uma cama para dormir ou uma casa de banho), sempre que íamos a casa de alguém faziam questão de nos oferecerem o melhor que tinham, nem que fosse apenas uma cadeira para nos sentarmos. Além disso, gostei muito do facto de os jovens estarem muito presentes e serem o “fermento” da Igreja, quer nas celebrações eucarísticas, quer na organização de todas as actividades.

Impressionaram-me as enormes diferenças sócio-económicas dentro da mesma comunidade. Era possível ver na mesma rua pessoas a viver em condições miseráveis e pessoas (mais propriamente os governadores) a viver muito bem, em casas enormes e com diversos luxos. Outros aspectos que me impressionaram prendem-se com questões muito culturais. Recordo uma situação em que o ministro da Saúde foi visitar o hospital (que era mesmo em frente à nossa casa). Horas antes de o ministro chegar, os funcionários mandaram embora toda a gente que estava à espera para ser atendida porque parecia mal o ministro chegar e ver tanta gente à espera. Nesse dia chovia imenso. Pelas 10h da manhã apareceu em nossa casa uma rapariga, com cerca de 17 anos, com o seu filho, que tinha nascido à 1h da manhã, a pedir para a deixarmos ficar lá até a chuva parar porque a tinham mandado embora do hospital, já que estava a “fazer monte”.

Após esta experiência em Moçambique, o que mudou em mim? Penso que aprendi a ver a essência das coisas, a questionar-me mais a mim mesma e menos aos outros. Percebi que muitas vezes a minha entrega ao que faço não depende tanto da minha disponibilidade horária mas fundamentalmente da minha disponibilidade interior.

“A experiência mais enriquecedora e gratificante da minha vida”

Marta Conceição, 23 anos, de Angeja, professora de Educação Física

Esta experiência missionária foi um sonho que se tornou realidade. Fiz dois anos de formação no SDAM, de Aveiro, e no final deste dois anos fui enviada como voluntária missionária para Moçambique (Inharrime). Estive lá de 2 a 31 de Agosto de 2010.

De tudo o que tive oportunidade de vivenciar, em conjunto com a minha colega Liliana, que me acompanhou nesta experiência, o que mais gostei foi o contacto permanente com as crianças e tudo o que dinamizámos para elas, tanto em Inharrime como nas restantes comunidades que visitamos. Foi bom sentir afabilidade das pessoas com quem nos cruzávamos na rua, que nos acolhiam sempre com um sorriso de orelha a orelha e uma mão estendida para nos desejar um bom dia.

Na visita às famílias, em conjunto com as Irmãs Palotinas, pude observar como aquelas pessoas vivem o seu dia-a-dia. Impressionou-me a forma como nos acolhiam, a alegria que sentiam por nos verem ali, mas também por verem a preocupação de sermos nós a deslocarmo-nos até junto delas para registar as necessidades maiores que sentiam e tentar colmatá-las de alguma forma. Numa das visitas, deparamo-nos com o “Papá” Artur, já velhinho, que mal nos viu, a mim e à Ir. Jacinta, ainda junto de outra família, pegou na sua esteira e, com as poucas forças que lhe restavam, trouxe-a para fora de casa e aguardou que chegássemos junto dele. Ofegante e com um rosto sofredor, dizia-nos, emocionado: “Irmãs, hoje passei muito mal a noite e pensei que já não ia ver a luz do dia… Ontem ligou meu filho, que está em Maputo. Já não falava com ele faz tempo… Agora aparece aqui a Irmã para me dar a bênção. Nunca pensei ter-vos aqui comigo depois da noite que passei, assim como nunca pensei ouvir a voz do meu filho novamente. Muito Obrigado!” Ao outro dia chegou-nos a notícia de que ele tinha falecido. Senti algo inexplicável e que nada é por acaso. Também me impressionou muito no estado em que a saúde se encontra, a inexistência de meios para responder às necessidades básicas e as condições em que se encontram as unidades de saúde.

Os momentos que vivenciei em Inharrime marcaram-me muito. Trouxeram mais cor à minha vida. Após o regresso, penso que venho ainda mais sensibilizada e atenta para com os não amados, os que estão sozinhos, os que são rejeitados. Como Madre Teresa de Calcutá dizia, “sei que não são mais que sentimentos”, mas fazem-me pensar, deixam uma enorme saudade e vontade de lá voltar, mesmo que seja só para estar e ser. Sei que não vou mudar o mundo. Sou uma pequena gota no meio do oceano. Mas, sem ela, o oceano seria menor.

Foi a experiência mais enriquecedora e gratificante que fiz na minha vida e apelo a que outros missionários não tenham receio e partam para dar um pouco de si a estas comunidades, para serem um testemunho vivo para a continuidade do voluntariado missionário.