Igreja orante

Poço de Jacob – 53 Neste ano pastoral, a nossa diocese vai debruçar-se sobre o tema da “oração que gera a esperança”. Um desafio que, bem no fundo, é a base da subsistência da própria Igreja. Não esqueçamos que ela brota continuamente da Eucaristia, que é a oração de Jesus, ao Pai, por nós. Que o Espírito Santo ora em nós com gemidos inefáveis, como diz S. Paulo. Mas fico alarmado quando vejo as pessoas reunidas para discutir o que fazer para preencher o ano com coisas que se vejam. Como se a oração fosse uma tarefa e não uma condição e estado de vida.

Podemos debruçar-nos sobre o tema da oração à luz dos místicos, por exemplo, ou só da Sagrada Escritura. Podemos propor encontros de oração, como adoração perpétua, que custa a entrar nesta diocese, ou os “Cercos de Jericó”, ou a oração à luz de Schoenstatt, ou do movimento carismático, ou de Taizé. Tudo isto é e será maravilhoso. Mas temos que nos convencer, praticamente, que a oração tem de fluir espontaneamente da e na nossa vida individual e comunitária. Que sem ela perdemos o caminho, como afirma Santa Teresa. Que rezar não é organizar momentos, mas chegar a fazer de todos os momentos oração. Que esta é a tarefa primordial de todo o plano pastoral. Que daí derivam a caridade, o zelo apostólico, a pastoral, a ajuda ao pobre, a esperança, a consciência da vocação, a força para a dor, o sentido da vida e da morte e tudo o mais que vale, para o céu e para a terra. Que no final deste ano a Igreja de Aveiro tem de ter crescido na atitude de orar, que não é dizer fórmulas apenas, mas deixar-se mover pelo Sopro de Deus, pelo perfumado hálito do “Ruah”, que é o Espírito de Deus na Bíblia, que paira sobre as águas iniciais do livro de Génesis.

Podemos, como ouvi em grupo, querer chegar com trabalho feito em plenários: “Nós fizemos isto e aquilo. E agora, o tema que se segue”. No fundo, quem faz acontecer, na Igreja e no mundo, é só Deus. Nós colaboramos na inutilidade de sermos servos, como diz o Evangelho. A maior sabedoria que se pode atingir na vida é entrar na ciência e na arte da oração.

Não posso deixar de recomendar a leitura da vida de Santa Teresa de Ávila, ou também o “Peregrino Russo”, um clássico da oração. Para chegar à atitude da oração contínua, importa exercitar as cordas da alma com momentos fortes, como diz o Papa, caídos diante do sacrário da nossa igreja, para deixar que o Senhor nos invada e nos seduza. Aí, então, sentiremos a força para calcar os caminhos do mundo como mensageiros da Boa Nova.

Um homem não vai para padre para ajudar os outros. Pode fazê-lo muito bem sem ser padre e aí está a nobre vocação do leigo. E uma mulher não vai para o convento para ajudar. Pode fazer isso sendo casada ou solteira. O que nos move a sermos consagrados, neste sentido, pois consagrados somos todos pelo baptismo, é o desejo e a certeza de termos sido separados do mundo para a oração e regressar ao mundo como agentes da arte de orar, fazer encontro de amor com o esposo de nossas almas, que é Cristo. Claro, também pela caridade pastoral. Mas o padre só é preciso como tal por causa de celebrar a Missa e rezar o Breviário (que se chama hoje Liturgia das Horas) pela santificação do Povo. Esta é sua tarefa primordial. Falhou aí, falhou em tudo. A religiosa, no convento, tem de se perguntar: O que faço eu na vida que me distinga de uma mulher casada com filhos e catequista? Que especificidade é a minha? Em que me distingo para ser testemunha e de que coisa o sou?

Depois de um ano sacerdotal, podemos ficar alarmados por ver que continuamos a dar mais valor ao que se faz do que ao orar. Continuam a perguntar-nos sobre o que fazer, quantas reuniões marcar… Porém, o povo de Deus continua sedento, pois lhes tiramos, em nome da pastoral, as suas expressões válidas a que chamamos devoções. Formar, sim. Mas sempre a partir da oração. Nunca o contrário. A sensibilidade dos homens entende Cristo que os convida, quando Ele se expõe numa custódia.

Que este ano seja decisivo para que a nossa tão querida diocese seja conhecida, não só por belos congressos e sínodos, mas por ser operante pela caridade, simplesmente porque aprendeu a rezar, a orar. E a deixar Deus fazer.

P.e Vitor Espadilha