Quando o Porto e o Benfica chutaram pelo Seminário

Em 1948, Porto e Benfica defrontaram-se no velhinho Mário Duarte em favor da construção do Seminário de Aveiro

No próximo domingo há jogo grande. Para quem gosta de futebol, mesmo que não aprecie as equipas em confronto, poucos jogos são mais aliciantes do que um Porto-Benfica. A última vez que as equipas se defrontaram foi em Aveiro, para a Supertaça, no dia 7 de Agosto passado. E desde então é aguardado um novo embate entre uma equipa que no ano passado parecia imbatível, o Benfica, e a outra que este ano ainda não foi derrotada, o Porto. Mas no historial dos confrontos entre os dois clubes rivais, houve um jogo inédito, provavelmente o mais pacífico de todos. O jornal “A Bola” recordou na edição de 7 Agosto de 2010, a quando da Supertaça, que há 62 anos, na cidade da Ria, os rivais ajudaram a erguer o Seminário de Aveiro.

Foi no dia 13 de Maio de 1948 que o Estádio Mário Duarte, perto do Seminário que estava a ser construído, se encheu para a disputa da “Taça Arcebispo-Bispo de Aveiro”. Organizado pela Comissão do Seminário, o jogo realizou-se às 18 horas para permitir “que a ele assistam os peregrinos que regressam de Fátima”, como escreveu então o Correio do Vouga, adiantando que o estádio estava a sofrer “grandes beneficiações” em ordem ao “sensacional encontro”.

Na edição seguinte deste jornal, sem dizer o resultado, D. João Evangelista de Lima Vidal escreveu que o convite fora acolhido por ambas as equipas “com uma tal amplidão de vistas”, “com um tal rasgo de entusiasmo”, “com uma tal delicadeza de expressões”, que pouco importava o resultado, já que a vitória pendeu para o Seminário.

“Eu, por exemplo, ninguém me viu nunca até aqui a dar palmas num stadium, num desses campos de jogo, muito menos a assobiar; quem me puxou desta vez para o Parque, quem me fez abrir a boca de pasmo e parar por instantes o coração diante das habilidades ou da bravura dos contendores, quem me levou como que por uma corda ao pescoço até ali, quem lá me conservou do princípio ao fim da peleja, quem poderia ser esse potentíssimo íman, esse atractivo invencível, esse dominador, quem poderia ser ele, se não fosse o Seminário!? E como eu, quantos, sabe-se lá quantos!”, escreveu o arcebispo-bispo de Aveiro.

Diz o jornal “A Bola”, no texto assinado por Paulo Horta, que “oitenta contos (hoje 400 euros), muito dinheiro para a época, terá sido quanto rendeu a festa futebolística no Estádio Mário Duarte”. E remata: “Três anos depois, a 14 de Novembro de 1951, iniciou-se a actividade escolar no Seminário de Santa Joana Princesa, um bonito edifício que, actualmente, tem a Universidade de Aveiro como vizinha e que perpetua a originalidade com que foi desenhado nos estiradores de um gabinete de arquitectura portuense”.

E o resultado desse Porto-Benfica? 4-2. Ganhou o FCP. Seis golos a favor do Seminário.

Dizem

que o bispo era o árbitro

Dizem-me que houve um jornal que anunciou ao seu público que quem era o árbitro do jogo, nessa tarde de 13 de Maio, no Mário Duarte, era o bispo da diocese. Foi lapso de informação, com certeza, mas teve graça. Esta espécie de pontificais não se encontra indubitavelmente nos Sagrados Cânones, não têm lugar, nem mesmo secundário, na liturgia dos nossos livros. Não é função que se exerça de mitra e báculo solenemente. E tanto eu não era o árbitro, que estava continuamente a perguntar aos meus dois vizinhos, sobretudo ao da esquerda, o Director Geral dos Desportos, a razão dos entusiasmos mais ou menos vibrantes da plateia; sinal de que eu não percebia nada, absolutamente nada do que se estava a passar ali; que só sabia que tudo aquilo era chuva do céu, delicioso orvalho sobre os alicerces, sobre as paredes, sobre as telhas do Seminário!

Quem ganhou? Eu sei lá quem ganhou! Quem ganhou não foi tanto o Benfica ou o Porto, quem ganhou na realidade, ao fim de contas, foi o pobrezinho do Seminário!

Ide lá daqui a pouco, e já o vereis de fato novo, de gravata ao pescoço, de flor na lapela!

D. João Evangelista de Lima Vidal, no Correio do Vouga de 22 de Maio de 1948