Expulsão e regresso do grande capital

Questões Sociais Acha-se difundida, em Portugal, uma revolta muito acentuada: contra os mercados internacionais, que exigem o equilíbrio dos orçamentos do Estado; contra a própria União Europeia, que alegadamente não presta as ajudas necessárias; contra a Alemanha, acusada de sobranceria e egoísmo na imposição de regras do jogo; contra o poder económico, devido aos lucros, salários e outros rendimentos excessivos; contra o Governo (o actual e os anteriores), acusado de não vencer todas estas forças, e até de fazer o seu jogo contra a população mais débil.

Devido a este ambiente de revolta, com manifestações multifacetadas, quase ninguém «vê» alguns factos, mais ou menos palpáveis: (1) – Os tais mercados, apesar das suas injustiças e até iniquidades, estão a funcionar como credores, perante um país devedor que não oferece credibilidade suficiente; (2) – Todos os governos e todos os partidos representados na Assembleia da República têm defendido o Estado social, embora cada um a seu modo; (3) – Nenhuma força política, social ou económica de oposição ao Governo, durante mais de trinta anos de democracia, apresentou o seu orçamento alternativo nem, pelo menos, um quadro orçamental devidamente quantificado; (4) – Também nenhuma dessas forças deu a conhecer uma espécie de orçamento da Constituição, que servisse de quadro orientador da evolução desejável e possível, a curto, médio e longo prazos; (5) – É muito escasso o contributo das escolas de economia neste domínio: isso está patente no facto de alguns economistas fazerem intervenções públicas fortemente marcadas por impressões pessoais e respectivas ideologias; descuram, em geral, a apresentação de soluções cientificamente consistentes e globalmente alternativas às que os governos têm adoptado; (6) – Salvo uma ou outra excepção, os comentadores políticos (especialmente os mais bem pagos) caracterizam-se pelo pedantismo sobranceiro; dão e entender que as hipóteses de solução dos nossos problemas colectivos se configuram tãos óbvias que se dispensam de as as explicitar…

Aparentemente, a nossa revolta só vê os aspectos negativos da situação do país; faz tudo para o denegrir e para que ele desagrade aos seus credores e ao grande capital, nacional ou estrangeiro, investido em Portugal. Com toda a inconsciência suicida, ignora que o grande capital sabe muito bem ser expulso, viver sem Portugal e regressar, quando lhe convier, impondo custos mais elevados…