Os seminaristas já não estão dentro de uma redoma

P.e João Miguel Araújo Alves, 31 anos, é Reitor do Seminário de Aveiro desde Setembro de 2010. Padre há cinco anos, estudou Teologia Espiritual em Roma e especializou-se como formador de jovens para o sacerdócio ministerial. Em plena Semana dos Seminários (7 a 14 de Novembro), fala-nos dos seminaristas de Aveiro, do papel do educador e do lançamento das bolsas para a formação dos futuros padres. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Como está o Seminário de Aveiro? Quantos são os seminaristas?

P.E JOÃO ALVES – O Seminário Diocesano de Aveiro engloba o Pré-Seminário, o Seminário de Santa Joana (do 10.º ao 12.º ano), o tempo propedêutico em Leiria, que deverá terminar no final do ano, e o Seminário Maior, em Lisboa. Tudo isto é o Seminário Diocesano de Aveiro. Neste momento temos uns trinta jovens no Pré-Seminário, habitualmente até ao 12.º. Depois há um acompanhamento personalizado e a alguns é feito o convite para viverem no Seminário. No Seminário de Santa Joana, há nove seminaristas: três no 10.º, um no 11.º e cinco no 12.º. Estudam todos na Escola Secundária Homem Cristo. Há um seminarista em Leiria, o Fábio, que era finalista de técnico superior de Justiça na Universidade de Aveiro. Em Lisboa, os seis seminaristas estão todos no Seminário dos Olivais: o Gustavo, de Recardães, no 2.º ano; o Pedro Barros, de Santa Joana, e o João Santos, de Santa Maria da Feira, no 3.º ano; o Hélder, de Oliveira do Bairro, o Leonel, de Aguada de Cima, e o Vítor, da Gafanha do Carmo, estão no 4.º ano. No futuro, os dois primeiros anos de Seminário Maior serão feitos no Seminário de S. José de Caparide (Cascais), também do Patriarcado de Lisboa.

Como vê hoje a missão do educador no seminário, num contexto em que os padres estão sob crítica permanente? Pensemos, por exemplo, na questão da pedofilia. É abordada no seminário ou passa ao lado?

Não passa ao lado. Estudando numa escola pública – e mesmo que fosse privada – apontam o dedo aos seminaristas. Sentem-se incomodados. Qual a postura do educador? Há três aspectos que qualquer educador deve assumir, até porque o educador cristão é sempre educador vocacional. Primeiro, tem de dar atenção pessoal. Não posso achar que o que é para um é para todos. Preciso de descobrir as necessidades, as motivações, os valores de que aquele jovem em concreto precisa e quais são as suas ânsias. Estabelecer uma relação pessoal. Depois, é preciso ter alguma competência pedagógica para o acompanhamento. Isto não quer dizer que seja necessário fazer cursos. Tive óptimos formadores que não tinham cursos de pedagogia. Por vezes basta ter o sentido do senso comum e alguma intuição. Mas hoje a realidade é tão complicada… Os seminaristas são bombardeados por muitas propostas. Antigamente os seminários como que tinham uma redoma. Esse tempo acabou. Hoje é preciso uma preparação pedagógica para ler bem a realidade e perceber qual a melhor forma de acompanhar. Por último, há um desafio pessoal a cada educador, que é o testemunho. Se eu não mostro uma realização e uma alegria pela vocação assumida, então não vale a pena. Um educador, mais do que possa dizer ou fazer, testemunha. Um testemunho verdadeiro é um testemunho credível. E nós sabemos bem que é o factor mais importante para o discernimento vocacional. Um padre refere sempre este ou aquele padre que o influenciou positivamente para o sacerdócio.

Por vezes, sentimos que certo tema paira no ar. Há situações com que os jovens são confrontados e que temos de as abordar – e ainda bem. Aqui conta o testemunho, a resposta, e, também, claro, o reconhecimento da debilidade da Igreja.

Por outro lado, temos reflectido sobre até que ponto faz falta uma proposta educativa católica na cidade. Também para podermos trabalhar na área académica com os seminaristas.

Faz falta uma escola católica na zona de Aveiro?

Sim. Não há em Aveiro nenhuma proposta de ensino particular com os anos do secundário. Somente o Colégio D. José I oferece cursos profissionais. Mas temos pais de Aveiro que vão colocar os seus filhos a Calvão, Anadia, Albergaria. Não estando nós descontentes com as propostas da Escola Homem Cristo, sentimos que faria sentido uma outra proposta. Há aquele professor que não gosta dos padres ou da Igreja. Há esta ou aquela dificuldade com as aulas de Educação Moral Religiosa Católica…

Temos vindo a reflectir até que ponto seria oportuno a Diocese ou alguma congregação investir aqui – o que seria também uma resposta ao ensino dos seminaristas, não numa perspectiva de os isolar, segregar, mas de possibilitar iniciativas pastorais no ensino.

Há dias, em Fátima, dizia-se no Fórum das Vocações que a pastoral vocacional é um compromisso de toda a toda a Igreja e responsabilidade da comunidade cristã. Concorda?

Sem dúvida. Estamos a dar passos nessa mudança. Cá em Aveiro, era a equipa do Seminário que assumia a promoção da reflexão sobre a vocação. Hoje a pastoral vocacional está integrada na pastoral juvenil. Quando falamos de vocação ainda nos vem à ideia ser padre ou religiosa. Talvez ainda gastemos demasiados esforços na pastoral tradicional, quando devemos canalizar forças para outras formas de acompanhamento mais personalizado, com mais tempo dedicado. Sobretudo nos âmbitos da pastoral universitária e juvenil e nos movimentos cristãos. Basta observar que alguns dos seminaristas maiores entraram para o seminário depois de terminarem os seus cursos superiores. Isto é cada vez mais comum. O que antes se dizia que era uma vocação tardia é hoje o tempo real em que a questão vocacional para o sacerdócio se coloca.

Está em mudança o perfil do seminarista?

Estamos a viver uma realidade, sem que o modelo antigo dos “seminaristas de carreira” esteja gasto, que exige que respondamos de modo diferente. A oportunidade da questão vocacional surge no mundo da universidade. Os jovens terminam o curso e perguntam: O que é que vou fazer? É neste contexto, a que não é alheia a instabilidade profissional e familiar, que surge com mais maturidade a questão vocacional do sacerdócio em jovens por vezes inseridos em movimentos cristãos ou acompanhados por congregações. Por isso, temos de apostar na educação da fé. Só posso dar uma resposta àquilo que Deus quer de mim se me encontrar com Ele. Só a vida e maturidade de fé permite dar a resposta. Há, de facto, outros contextos para surgir as vocações.

“A formação de um seminarista maior custa cerca de 4000 euros por ano”

CORREIO DO VOUGA – A Semana dos Seminários é sempre ocasião para rezar pelos seminários e para a ajuda material. Como vive o Seminário?

P.E JOÃO ALVES – O Seminário vive da oferta da Semana dos Seminários – que não sei quanto é por ano –, vive também da contribuição da família dos seminaristas (175 euros mensais, em Aveiro – as famílias dão o que podem; em Lisboa, são 300 euros mais as propinas da Universidade Católica, que custam cerca de 1000 euros por ano) e ainda de parte dos estipêndios das missas. Em Aveiro, a despesa com um seminarista ficará pelos 2100 euros por ano. Em Lisboa, pelos 4000 euros. Todos os meses o Seminário pede ao fundo diocesano. Como gastos, além da estadia dos seminaristas e do trabalho dos funcionários, há despesas com o edifício. Neste momento há obras no Claustro dos Apóstolos, que está a ser impermeabilizado. Custarão cerca de 40 mil euros. Recentemente foi pintada a parte onde vivem as irmãs. Depois da construção da Casa Sacerdotal, será renovada a zona do seminário do lado deste novo edifício.

Com a ida dos Seminaristas para Lisboa, aumentaram as despesas. Resolvemos, por isso, propor à Diocese a criação de bolsas de estudo destinadas exclusivamente à formação do seminarista maior ou menor. Há uma conta bancária só para isso. A bolsa não é nominal. Não se destina a um seminarista em concreto. Uma pessoa, um conjunto de pessoas, um grupo de catequistas, uma paróquia podem contribuir com uma bolsa completa ou parte. A equipa do Seminário gere consoante as necessidades, canalizando mais para a formação de um ou outro seminarista.

Como é que as pessoas podem aderir às bolsas?

Podem ir ao encontro do seu pároco ou entrar em contacto directo com o Seminário de Aveiro para darmos as informações necessárias. Fizemos um prospecto para distribuir esta semana que explica o funcionamento das bolsas. Elas têm uma finalidade económica e espiritual, porque sabemos por outras experiências similares que a pessoa que contribui com dinheiro reza pelos seminários. Cria-se, assim, uma cadeia de oração e afectiva para com os seminários. Através da bolsa de estudo, o seminário vai ao coração das pessoas.

Pretendem, de certa forma, institucionalizar o carinho e a solidariedade pelo Seminário, mas já tem havido gestos espontâneos de generosidade…

Sim. Há ofertas pontuais. O Seminário já tem recebido heranças, sobretudo de padres, mas também de leigos. Por outro lado, há grupos que ao usarem o Seminário deixam uma oferta generosa. Outro caso: um grupo de Santa Catarina (Vagos) que ao peregrinar a Fátima angariou uma quantia que ofereceu ao seminário. A generosidade existe. Ao propormos bolsas anuais de 2000 euros para um seminarista menor e 4000 euros para um seminarista maior, criamos apenas uma via de ajuda concreta, com destino preciso: formação de um seminarista.

Devo referir ainda que na Semana dos Seminários estamos a distribuir aos padres o Projecto Educativo do Seminário de Aveiro.

Em que consiste, no essencial, o Projecto Educativo?

O Seminário de Aveiro é um tempo educativo. O Projecto explica aquilo a que se propõe, as suas finalidades, o tipo de acompanhamento. Este Seminário não existe para formar padres. Existe para educar os jovens na fé e ajudá-los a fazer um primeiro discernimento vocacional, para o ministério ordenado ou para outro estado. Distinguimos três âmbitos: educação humana, educação intelectual e educação espiritual. É um tempo educativo para ajudar um jovem a perceber melhor o seu caminho. A proposta que fazemos é claramente ser padre. É este o horizonte. Mas sentimo-nos tão felizes se alguém nos diz “Sim, em quero continuar”, como sentimos que cumprimos a nossa missão quando alguém no diz “Descobri que a minha vocação não é por aqui”.