“Comigo, levantaram-se 500 jovens que queriam seguir o sacerdócio”

O P.e Alberto Gomariz é natural de Murcia (Espanha) mas está ligado à diocese de Madrid. No seu percurso vocacional foi muito importante o Caminho Neocatecumenal, comunidade a que continua ligado. Depois de quase um ano em Avanca, o P.e Alberto trabalha nas paróquias de Sever do Vouga e Dornelas. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira

CORREIO DO VOUGA – Como foi o seu percurso até ser padre?

ALBERTO GUIRAO GOMARIZ – Até aos 18 anos, tinha uma fé normal, herdada dos meus pais. Na adolescência tive uma crise profunda. Continuava a praticar a fé, mas sem grande significado. Ia à Missa aos domingos e só isso. Quando a minha irmã estava no Caminho Neocatecumenal [ou, simplesmente, Caminho], convidou-me para uma das catequeses e foi aí descobri Jesus Cristo na minha vida. Pude então fazer uma experiência de fé forte, que mudou a minha vida. Isto foi em 1988. Depois integrei-me numa comunidade. Celebrávamos a Palavra durante a semana, a Eucaristia aos sábados, e fazíamos um convívio uma vez por mês. Pouco a pouco fui amadurecendo a minha vocação. Mas ainda não gostava muito da ideia de ser padre. Saía dos meus projectos. Queria estudar, ser advogado. Mas no final dos estudos, fui à Jornada Mundial da Juventude e respondi ao convite do Senhor.

Isso aconteceu em Paris, em 1997…

Sim. Depois do encontro com o Papa João Paulo II, houve um encontro vocacional com Kiko Arguello [iniciador do Caminho]. Estavam presentes muitos bispos. Depois de uma catequese, houve o chamamento vocacional. Kiko disse: “Aqueles jovens que se sentem chamados pelo Senhor a darem a sua vida como padres na Igreja, que queiram ser preparados para esta missão, levantem-se…”

Quantos é que se levantaram?

No meu ano, levantaram-se entre 400 e 500 que queriam seguir o sacerdócio.

500 jovens?

Sim. Estávamos 50 ou 60 mil jovens no encontro. Depois houve um chamamento para raparigas, normalmente para vida de clausura, no mosteiro. A minha irmã, que está no Caminho, também se levantou e hoje está nas Freiras de Belém. Em Portugal têm uma comunidade em Setúbal.

O que foi marcante para si no percurso para padre?

Foi sem dúvida o encontro com Jesus Ressuscitado. Nos tempos de estudante fui experimentando que a minha vida era Jesus Cristo, porque nunca tinha sido tão feliz como quando experimentei o amor de Deus na minha vida. Isso é que foi o mais marcante. Depois houve essencialmente amadurecimento, enquanto estudava por insistência dos meus pais.

Os seus pais queriam que seguisse outro curso, mas hoje aceitam a sua vocação?

Sim. Somos três irmãos e os três consagrados. Além da minha irmã religiosa, tenho um irmão que é padre diocesano, em Madrid, e que segue o caminho espiritual do Opus Dei. Os nossos pais não tinham este projecto para nós. Achavam que íamos casar, como a maioria. Para eles, isto foi uma surpresa. Mas foi gradual. A minha irmã consagrou-se com 26 anos. Eu e o meu irmão, aos 28.

Foi decisivo para si, conhecer o Caminho Neocatecumenal, que, como é sabido, é uma proposta católica que se centra na redescoberta do baptismo. É necessário que hoje os cristãos descubram o seu baptismo?

O Caminho começa do zero. Nas catequeses iniciais anuncia-se o “kerigma” [mensagem cristã reduzida ao essencial; ex: “Cristo morreu e ressuscitou por nós”], como no tempo dos primeiros cristãos, em que a maioria era pagã.

Hoje, apesar de as pessoas se dizerem cristãs, estão marcadas pelo paganismo?

Talvez. Falta a muitas pessoas a formação, falta uma caminhada de maturação na fé. Não diria que são pagãs, mas são “meninos na fé”. Eu também era assim. Ia à igreja, mas tinha uma mentalidade mais pagã do que cristã. Temos de ter uma pastoral de apóstolos, de ir ao encontro das pessoas, de anunciar Jesus Cristo e o amor de Deus na sua vida, de anunciar que estão salvos dos seus pecados e das suas escravidões, que têm a possibilidade de uma nova vida.

Quantos foram ordenados consigo? Há muitas “vocações neocatecumenais”?

Foram ordenados nove. Os seminários têm muitas vocações. O Redemptoris Mater [“Mãe do Redentor” – nome dado aos seminários ligados ao Caminho] tem 95 seminários no mundo. Em Portugal tem dois, um em Lisboa, que há semanas ordenou três diáconos, e outro no Porto, que tem 12 ou 13 seminaristas. Estes seminários têm a característica de serem diocesanos e missionários. Dependem do bispo, porque o Caminho não é um movimento em si, não é uma congregação religiosa ou um grupo de padres. Somos diocesanos, dependemos do bispo, mas estamos disponíveis para qualquer parte do mundo.

É com esse espírito missionário que está na diocese de Aveiro?

Normalmente ficamos dois anos, depois de ordenados, na diocese de origem. Eu, depois dos dois anos em Madrid, estive na Albânia. Depois vim para Portugal, porque havia aqui uma necessidade muito grande.

Com tem sido a sua missão aqui em Portugal, a começar em Avanca?

Em Avanca vivi uma etapa de preparação. Serviu principalmente para me habituar à língua e aos costumes paroquiais, que em alguns aspectos são diferentes de Espanha. Por exemplo, na catequese, todos aos anos têm festas: Festa do Pai-Nosso, Festa da Vida, Profissão de Fé. Outro exemplo: o padre acompanha o defunto ao cemitério… Foi um ano de aprendizagem à sombra do P.e José Henriques da Silva.

Nós nunca vamos sozinhos. Em Avanca estive com um leigo missionário da Galiza. Agora, estou com o leigo David, de Lisboa, que consagrou este ano à missão.

Como tem sido a sua missão em Sever? Foi bem recebido?

Sim, muito bem recebido. Fiquei surpreendido porque tínhamos começado a Eucaristia, estávamos no cântico de entrada, e as pessoas começaram a bater palmas. Julgo que significou que as pessoas precisam e apreciam o padre.

O que é para si, hoje, ser padre?

É entregar-se aos demais para lhes dar o que para mim foi e é o mais importante da minha vida: Jesus Cristo. Faço as vezes de Jesus Cristo, através da sua palavra, da presença, dos sacramentos. Dar Jesus Cristo. Que possam descobrir através de mim o amor que Deus lhes tem.

Na sua experiência de meses em Sever do Vouga, há alguma área em que deva trabalhar mais?

Catequese para crianças. Mas se calhar temos mais necessidade de uma formação sistemática de adultos. Aliás, a catequese e os grupos também são para adultos. É importante ter uma comunidade. É um dom ter uma comunidade. Tenho três anos como padre, mas a minha comunidade ajuda-me muito.

Portanto, em Sever, continua integrado numa comunidade neocatecumenal?

Pertenço a uma comunidade de Águeda. Encontro-me com ela todas as semanas. À quarta temos a celebração da Palavra e ao sábado a Eucaristia. E num domingo por mês temos um convívio. Chamamos a isto “o tripé”.

Em Aveiro, onde há comunidades neocatecumenais?

Há comunidades do Caminho em Sangalhos (três ou quatro comunidades), que são as mais antigas, em Águeda (uma) e em Avanca (duas) e também há alguns elementos na Gafanha da Nazaré.

O caminho valoriza muito o baptismo. Os cristãos de hoje ignoram a dimensão baptismal?

Julgo que sim. O baptismo é o princípio de tudo. As pessoas não esquecem o baptismo. Simplesmente, não sabem o que significa ser cristão. Não têm a formação nem – o que é mais importante – o encontro com Jesus Cristo. O Caminho quer ressuscitar o catecumenado da igreja primitiva, mas adaptado aos novos tempos. Na igreja dos primeiros séculos, o catecumenado era para os que se iam baptizar. Agora é para os que já estão baptizados.

Como começou o Caminho Neocatecumenal?

Começou de uma forma inesperada. Kiko Arguello [Francisco “Kiko” Arguello, Leão, 9 de Janeiro de 1939] era pintor e abandonou tudo para ir viver com os mais pobres de Madrid, nas favelas, seguindo a espiritualidade de Charles de Foucauld [francês, contemplativo e interventivo, que viveu com os povos do deserto do Norte de África]. Foi aí que começou a primeira comunidade neocatecumenal. Kiko encontrou uma senhora que chorava e esta contou-lhe o seu drama. O marido batia-lhe e obrigava os filhos pequenos a trabalhar. Kiko convenceu-a a levá-lo a conversar com o marido. E quando conversava com o homem, ele ficava mais calmo. Nesses encontros liam a Bíblia. Pouco a pouco foram-se criando comunidades. Isto chegou aos ouvidos do bispo da altura, que era D. Casimiro Morcillo, e este pediu-lhe: “As catequeses que está a dar a estes pobres dê-as também nas paróquias”. E foi assim que começou o anúncio do Caminho que convida conversão, também com a freira Carmen Hernández.

O Caminho catecumenal ajuda a ultrapassar a crise vocacional?

Eu creio que o Espírito Santo está atento e dá respostas à sua Igreja. Nós temos é que estar atentos ao Espírito Santo. Há grupos que estão a dar muito fruto, como o Caminho, os Carismáticos, os Focolares, os Cursilhos de Cristandade. Quando as pessoas ficam marcadas pelo encontro com Cristo, as pessoas respondem.

Qual é o maior fruto do Caminho?

O fruto mais surpreendente é a família, que se abre à vida e dá origem a vocações. A origem de tudo está na família. Os pais participam na vida de fé dos filhos e os filhos acompanham os pais. E depois há famílias inteiras que se dedicam à missão.

Famílias missionárias?

Sim. Uma família da minha comunidade de Madrid está na China. Há outras que estão nos países de Leste, na Europa. As famílias – nunca vai uma família isolada – vão para um meio que ainda não conhece Jesus Cristo. O pai procura um trabalho e família vive no meio das outras. Como uma família normal. Os filhos vão à escola como as outras crianças. As famílias convivem e anunciam Jesus Cristo boca-a-boca. As duas ou três famílias que se reúnem vão convidando outras famílias. Os pais convidam colegas de trabalho ou pais dos colegas dos filhos na escola. E é assim que as comunidades vão crescendo e surge a Igreja. Chama-se a isto “implatatio ecclesiae” [implantação da igreja].