Papa visitou Sinagoga de Roma e lembrou acção dos católicos na II Guerra Mundial
Bento XVI visitou no domingo, 17, a Sinagoga de Roma, defendendo que o Vaticano ajudou os judeus, muitas vezes de forma “escondida e discreta”, durante a II Guerra Mundial.
O Papa abordou em particular a questão da Shoah: “Neste lugar, como não recordar os judeus romanos que foram retirados das suas casas, diante destes muros, e com horrenda tortura foram mortos em Auschwitz? Como seria possível esquecer os seus rostos, os seus nomes, lágrimas, desespero de homens, mulheres e crianças?”
“O extermínio do povo da Aliança de Moisés, antes anunciado, em seguida sistematicamente programado e realizado na Europa sob o domínio nazi, chegou naquele dia tragicamente também a Roma. Infelizmente, muitos foram indiferentes, todavia muitos, também entre os católicos italianos, sustentados pela fé e pelo ensinamento cristão, reagiram com coragem, abrindo os braços para socorrer os judeus perseguidos e fugitivos, muitas vezes arriscando a própria vida, e merecendo uma gratidão perene”, indicou.
Bento XVI deixou claro que “também a Sé Apostólica desenvolveu uma acção de socorro, muitas vezes escondida e discreta”.
“A memória destes acontecimentos deve levar-nos a reforçar os laços que nos unem para que cresçam cada vez mais a compreensão, o respeito e o acolhimento”, assinalou.
A terceira visita do Papa tinha como objectivo consolidar o diálogo e o respeito entre as duas comunidades, procurando ultrapassar as dificuldades que têm surgido neste relacionamento.
“Com sentimentos de viva cordialidade encontro-me no meio de vós para manifestar a estima e o afecto que o Bispo e a Igreja de Roma, e toda a Igreja Católica, nutrem por esta Comunidade e pelas Comunidades Judaicas espalhadas pelo mundo”, indicou.
O Papa foi recebido pelo presidente da Comunidade Judaica de Roma, Riccardo Pacifici, pelo presidente da Comunidade Judaica Italiana, Renzo Gattegna, e pelo rabino-chefe da Sinagoga de Roma, Riccardo Di Segni.
Bento XVI, alemão, parou diante da lápide que recorda a deportação de 1021 judeus para o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, a 16 de Outubro de 1943. O Papa deteve-se também diante da lápide que lembra o atentado de 9 de Outubro de 1982, em que perdeu a vida Stefano Taché, menino judeu de dois anos, e ficaram feridos 37 judeus que saíam do Templo.
No seu discurso, Bento XVI agradeceu ao rabino-chefe da Sinagoga de Roma pelo convite e lembrou a primeira visita papal ao local, que aconteceu há 24 anos, por iniciativa de João Paulo II, o qual quis, segundo o actual Papa, “dar uma contribuição decisiva em favor da consolidação das boas relações entre as nossas comunidades, para superar qualquer incompreensão e preconceito”. “Esta minha visita insere-se no caminho traçado, para confirmá-lo e reforçá-lo”, assegurou.
Ecclesia / CV
Desconhecidos mas com raízes comuns
“Cristãos e judeus possuem uma grande parte comum de património espiritual, rezam ao mesmo Senhor, possuem as mesmas raízes, mas continuam reciprocamente desconhecidos. Cabe-nos a nós, como resposta ao apelo de Deus, trabalhar para que permaneça sempre aberto o espaço para o diálogo, o respeito recíproco, o crescimento na amizade, o testemunho comum diante dos desafios do nosso tempo, que nos convidam a colaborar para o bem da humanidade neste mundo criado por Deus, o Omnipotente e Misericordioso”, afirmou Bento XVI.
O Papa reconhece que há “problemas e dificuldades” na relação entre judeus e cristãos, mas realça que o Concílio Vaticano II deu um impulso “irrevogável de diálogo, de fraternidade e amizade” com os judeus. Bento XVI observou ainda que “a Igreja não deixa de condenar as faltas de seus filhos e filhas, pedindo perdão por tudo aquilo que ajudou a favorecer de algum modo as chagas do anti-semitismo e do antijudaísmo”.
