Já lá vão quarenta e cinco anos depois do Concilio Vaticano II que se encerrou em 8 de Dezembro de 1965. Vinte anos depois (1985), João Paulo II convocou um Sínodo Extraordinário dos Bispos, a fim de se fazer uma primeira avaliação da recepção e implementação das orientações conciliares. A publicação “Viver o Concílio” dá conta do trabalho realizado no Sínodo. Aí se apreciaram dificuldades encontradas e passos andados no que se refere às grandes constituições da Igreja, da Liturgia, da Palavra de Deus, do diálogo “Igreja – Mundo”. A cada reflexão os bispos sinodais juntaram sugestões para corrigir o que era necessário e impulsionar a renovação. Na altura e nos anos seguintes, não faltaram bispos, teólogos, peritos em pastoral a publicar também a sua reflexão. Nada impede, antes se recomenda, que a avaliação continue e dela se faça eco, tanto mais que já há quase duas gerações de padres e leigos, posteriores à realização do Concílio, agora com responsabilidades na Igreja.
O Vaticano II foi, tem-se dito e repetido, o maior acontecimento da vida da Igreja no último século. Justifica-se, por isso, este interesse em ver onde vamos, se parámos ou retrocedemos, num caminho que se apresentou tão auspicioso e determinante para a renovação que se impunha à Igreja e que João XXIII intuiu como um apelo inadiável.
A reflexão sobre a caminhada conciliar não é hoje menos urgente. O mundo mudou, emergiram novas culturas, o pluralismo em todos os sectores da vida é um dado adquirido, o fenómeno da globalização traz consigo oportunidades novas, a sociedade laicizou-se a olhos vistos, as novas tecnologias moldam o pensar e o agir das pessoas, a própria Igreja depara, no seu seio, com situações novas e menos esperadas como a crise das vocações, os rumos da família, o abandono de muitos crentes, a explosão das seitas… Poderá dizer-se que se a Igreja, pelos seus responsáveis pastorais e as suas comunidades, fosse fiel aos critérios e orientações conciliares, estaria agora, no seu conjunto, mais capacitada para responder aos problemas que, de dentro e de fora, foram surgindo. Não há renovação sem mudança interior e esta não se obtém por decreto. É decisão e esforço de cada um, face à verdade que move a vida e às realidades que a traduzem.
Não se pode ignorar que o Vaticano II operou e continua a operar, em alguns campos, mudanças renovadoras na vida da Igreja. Um destas será talvez o não deixar sossegada a consciência daqueles que acreditam que o Concílio foi e continua a ser um dom especial de Deus à Igreja e ao mundo, e actuam coerentemente com esta convicção.
A Igreja não pode mais, depois do Concílio, deixar-se tentar pelo regresso a formas históricas, carreirismo, títulos e prestígios, que a empobreceram. Esta tentação é real e parece ganhar adeptos entre a gente nova. O caminho conciliar, porém, é outro. Nunca o do regresso a um passado que deixou inúmeras marcas, ainda não curadas por completo e a dificultar a purificação do rosto visível e da acção da Igreja.
Promover a edificação do Povo de Deus, concretização do projecto salvífico universal, é o dever da Igreja de Cristo que, em cada dia, se deve assumir como Comunhão e Missão, serva e pobre, mãe e mestra. É este o único objectivo aceitável que compromete tanto a hierarquia como os cristãos conscientes. De outros objectivos consequentes se pode dizer, como: tudo centrar em Jesus Cristo, dar lugar cimeiro à Palavra de Deus e a uma liturgia comunitária participativa, despida de ritualismos vazios; incrementar a formação dos cristãos e das comunidades na fidelidade ao Evangelho, para que testemunhem pela fé, pela caridade e pelo acolhimento sem fronteiras; dar espaço aos leigos para que sejam cristãos adultos, apóstolos activos e interventores na sociedade, com autonomia que lhes é própria; ler e ensinar a ler os sinais dos tempos; capacitar clérigos e leigos para se situarem e dialogarem com um mundo plural, religiosamente não uniforme, e para conhecerem os dinamismos que o comandam a sociedade; colaborar, de modo aberto, em todas as causas que servem o homem, a sua dignidade e direitos; mostrar aos cristãos o horizonte da conversão, da santidade, do compromisso apostólico, como horizonte normal da vida do crente…
Campo aberto, convidativo a novos sentimentos e atitudes, inspiradas em Cristo e na sua mensagem, atento aos gritos de quem luta e sofre… O Vaticano II está, em muitos aspectos, por realizar. Quem o quer arrumar e o julga ultrapassado, não percebeu ainda a sua riqueza, nem bebeu da sua seiva renovadora.
