As causas profundas

As razões profundas das crises civilizacionais não as queremos nós, muitas vezes, nem procurar nem admitir. Orgulhosos do nosso poder humano, recusamos abrir os olhos e o coração e deixar-nos invadir por Aquele “que preenche tudo em todos”.

Calculamos matematicamente os sinais negativos e os sinais positivos da economia, desenhamos estratégias de equilíbrio entre grupos e povos… Mas vivemos sempre a “trabalhar no arame”, sujeitos a um pequeno estremeção que reponha, num instante, todos os medos, que force a um novo recomeço, e mais outro e mais outro…

“A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os seres humanos e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade.” – como refere Bento XVI, na sua encíclica Caridade na Verdade, n.º 19.

É isso: só a nossa resposta a uma vocação transcendente de Deus, “que nos amou primeiro, ensinando-nos por meio do Filho o que é a caridade fraterna”, nos fará perceber a existencial relação entre pessoas e povos, a função e o alcance das nossas qualidades. Só ela nos inspirará os caminhos de uma cooperação autêntica, de estratégias sinceras para a superação dos problemas.

A poucas semanas de eleições, legislativas e autárquicas, proclamam-se slogans, prometem-se reformas, apontam-se medidas…, de caça ao voto, de reverência ao partido, de mordomias garantidas!

Escreve-se, em alguns cartazes, “as pessoas primeiro”. Seria óptimo que isso significasse o respeito pela dignidade humana como primeiro princípio, a consciência das dimensões supra-materiais da mesma pessoa. E a proposta de organização de um tecido social, cujas estruturas favoreçam a construção dessa pessoa. Essa, sim, seria uma referência de futuro, que abraçaríamos com esperança.

“Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. (…) Comprometer-se pelo bem comum é, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de instituições que estruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de polis, cidade. (…) Todo o cristão é chamado a esta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades que tem de incidência na polis. Este é o caminho institucional – podemos mesmo dizer político – da caridade…” – Bento XVI, Caridade na Verdade, n.º 7.

Aí está um desafio claro do Papa a escolhermos de forma consciente, sobretudo a tomarmos parte activa na gestão das coisas públicas com decisão e critérios evangélicos!