Tolkien, ou como o cristianismo inspira a fantasia

J.R.R. Tolkien, autor de “O Senhor dos Anéis”, obra que está na origem dos filmes mais vistos de sempre, morreu no dia 2 de Setembro de 1973. Completam-se hoje 36 anos.

Se recordamos nesta página o professor e escritor inglês de nome completo John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973), é porque, ao contrário do que já tem sido dito, a sua obra é fundamentalmente religiosa e católica e não de “virtudes pagãs”.

Tolkien era católico por convicção. Não gostou de algumas mudanças do II Concílio Vaticano, mas isso não o impediu de se manter fiel à Igreja católica romana. Na Inglaterra, o adjectivo “romana” tem de ser dito. Ele era católico romano e assim continuou, mesmo quando a liturgia passou a celebrar-se nas línguas vernáculas. Conta o neto de Tolkien que ia à missa com o avô e o ouvia a dar as respostas em latim, baixinho, quando já todos respondiam em inglês. E não era por ser especialista em línguas antigas.

Tolkien teve influência na conversão ao cristianismo de outro grande escritor inglês. Em “Surprised by Joy” [“Surpreendido pela Alegria”], C. S. Lewis, autor das “Crónicas de Nárnia” e convertido ao cristianismo de versão anglicana, afirma: “A minha amizade [com Tolkien] marcou a derrocada de dois dos meus velhos preconceitos. Na minha entrada no mundo aconselharam-me vivamente (de forma implícita) a nunca me fiar num papista, e na minha entrada na Faculdade de Letras (de forma explícita) a nunca crer num filólogo. Tolkien era uma coisa e outra!”

Lewis, Tolkien e outros escritores formaram em 1936 um clube em que os membros tinham de ter dois gostos: pela escrita e pelo cristianismo.

Ao ler ou ver os filmes do “Senhor dos Anéis”, podemos interrogar-nos: mas onde estão os elementos cristãos? Cristo não é referido uma única vez… A questão fora posta ainda no tempo de Tolkien (mas os filmes são já deste século) e ele insistiu que a sua obra tinha de facto um “elemento cristão” e especificamente “católico romano”. A primeira explicação dessa aparente ausência diz que Cristo está presente em “O Senhor dos Anéis” como está presente no Antigo Testamento, onde o seu nome nunca aparece. Está em graça, e não explicitamente em pessoa. Por outras palavras, “O Senhor dos Anéis”, como o Antigo Testamento, só se entende sob o prisma do Evangelho.

A obra tem de facto um sentido fundamentalmente cristão. Fiquemos com alguns elementos. Primeiro, a afirmação de uma das personagens de que “por cima de todas as sombras, caminha o sol”. É a certeza cristã que de não prevalecerão as trevas. Por outro lado, a viagem de Frodo e Sam para destruir o anel é claramente a imitação de Cristo a levar a cruz. “O Senhor dos Anéis” é uma “peça de paixão sublimemente mística”, afirmou um estudioso de Tolkien. Por último, o dia da destruição do anel (e do senhor das trevas) é um 25 de Março. Tolkien conhecia uma tradição inglesa antiga que diz que a Páscoa foi a 25 de Março, tal como sabia que esse é o dia litúrgico da Anunciação, o dia da encarnação de Cristo, a nove meses do Natal. O pecado, como o anel, é destruído a 25 de Março (Encarnação/Paixão).

Além de mundos, eras e enredos, Tolkien inventou línguas para os elfos, o Quenya, o Sindarin o Adunaico… E traduziu nelas as principais orações cristãs.

J.P.F.

“Avé-Maria”

em Quenya

Aia María quanta Eruanno i Héru as elyë. Aistana elyë imíca nísi ar aistana i yávë mónalyo Yésus. Airë María Eruo ontaril á hyamë rámen úcarindor sí ar lúmessë ya firuvammë. Násië.