À Luz da Palavra XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
Leituras: Is 35, 4-7; Sl 145 (146), 7.8-9a.9bc-10; Tg 2, 1-5; Mc 7, 31-37
“Meteu-lhe os dedos nos ouvidos e com saliva tocou-lhe a língua. Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe: «Efatá», que quer dizer «Abre-te»” (Mc 7, 33s).
Se não soubéssemos que os textos bíblicos da liturgia há muito que foram seleccionados, decerto que pensaríamos que o Evangelho de hoje, com Jesus a tocar na língua do surdo, representa uma grande imprudência ou uma provocação, nestes tempos ameaçados pela Gripe A. No entanto, se o Evangelho estiver a ser teológica e sanitariamente incorrecto, não será a primeira vez, porque, como é sabido, a Boa Nova subverte conceitos comuns. “Os últimos serão os primeiros”, “os poderosos serão rebaixados”, os “pacíficos é que conquistam o céu”, “as pequenas moedas valem mais do que as maiores fortunas”, “o que sai do coração do homem é que o torna impuro e não aquilo que come”…
Para a mentalidade higienista e securitária da nossa época (e ainda bem), diversos gestos de Jesus parecem ser de evitar. Comia sem lavar as mãos, tocava em doentes com lepra, usava a saliva para curar, por vezes acrescentava lama (Jo 9,11)… Tais procedimentos têm quase sempre uma dupla mensagem. Por um lado, contradizem rituais que punham as tradições em primeiro lugar, geralmente desprezando o ser humano, típicos de alguns grupos do tempo de Jesus; por outro, anunciam a salvação, que quase sempre começa por ser física. Mostram, como nos lembra hoje Isaías, que “se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos”.
Os Padres da Igreja (teólogos dos primeiros séculos) viram nestes gestos a origem dos sacramentos. No caso que o Evangelho de hoje nos apresenta, na saliva podemos ver a água do baptismo, e no “efatá”, a palavra que acompanha o sacramento. Os sacramentos são sempre gesto mais palavra. E, de facto, o baptismo abre-nos a porta da Igreja e da filiação divina. O baptismo é um “efatá”.
Mas com esta interpretação já estamos a espiritualizar o que na origem é físico e concreto. A Bíblia gosta de descrever sem abstracções a maneira como sente a salvação, que passa sempre pela resolução dos problemas que afligem no dia-a-dia. Nisso, Isaías é insuperável. Antevê deste modo a vinda de Deus e da sua justiça: “O coxo saltará como um veado e a língua do mudo cantará de alegria. As águas brotarão no deserto e as torrentes na aridez da planície; a terra seca transformar-se-á em lago e a terra árida em nascentes de água”.
Jesus mostra que o tempo da salvação chegou. E para os cristãos sobrou esta magnífica missão: mostrar que esse tempo continua aqui e agora. Para isso é preciso levar água à aridez, sem medo do sol abrasador; dar voz aos mudos, sem medo de que o nosso silêncio se perturbe; abrir caminho aos coxos, sem medo que as nossas estradas fiquem congestionadas, enfim, estender as mãos a quem não tem que lhe dê um olhar sequer. Sem medo de contágios.
