Como deve ser um cristão?

Colaboração dos Leitores Meditação numa noite de Inverno. Que tranquilidade… o jantar tinha sido bom. A noite estava fria lá fora, e eu confortável, junto da lareira. Em casa todos dormiam tranquilos e quentes. Fiquei só e queria ficar só, com o meu conforto. Mas Deus entrou sem bater, para dialogar comigo, contra minha vontade. É que um diálogo assim, tão íntimo, arrebata-me da minha cadeira confortável, que a fraqueza do corpo tantas vezes pede. Mas Ele insistiu! E apesar do sono que me invadia, tentei meditar e responder à pergunta que Ele me fez:

– Como deve ser um Cristão?

Bom, evidentemente que deve ser… Verdadeiro, optimista, alegre, feliz, etc., etc., dando o melhor exem-plo, amando sempre numa luta constante, até ao fim. E se ama e luta, o cristão até é verdadeiro (ainda que contra tudo e contra todos). Mas… e as verdades que não queremos ouvir porque nos desagradam? E as verdades que não se dizem, “por caridade”, por cobardia, “porque não convém”?

Optimista – pois a sua Esperança reside em Deus, um Deus que até se dá em alimento; e quem não se sente optimista com um Deus nas entranhas?! E se muitas vezes não o somos é porque nos esquecemos disto.

Alegre – pois o sorriso é sempre uma porta aberta e um sinal de oração, de simpatia e, quantas vezes, a alavanca para que os outros se deixem ajudar e nos ajudem também.

Mas seremos sinceramente alegres, sempre, mesmo quando tudo corre ao contrário do que prevíamos? E quando nos dizem a tal verdade que não queríamos ouvir? E quando queríamos dizer a verdade e não fomos capazes? E quando em nome do Senhor tivemos a coragem de a dizer e fomos tão mal compreendidos? E quando, inocentes, somos vítimas de ciladas, armadas por pessoas que nunca imaginaríamos? Onde ficou o nosso optimismo e alegria? Oh! Como é difícil ser cristão a valer.

Feliz – depende do significado que se dê à palavra. Verdadeiramente felizes nos consideramos na medida em que ajudarmos os outros a sê-lo também. E quando alargamos este ideal para lá da família, conhecidos e amigos, dilata-se a felicidade.

Eu poderia contar pelos dedos, tão poucos eles foram, os dias em que cheguei ao fim, cansada mas feliz, por algo que fiz material ou espiritualmente. E os outros dias todos em que a consciência acusa que a missão não ficou cumprida?

Aquele pobre que mandámos embora com uma esmola, em vez de o convidarmos a entrar e dialogarmos, tentando ajudá-lo a resolver o seu problema… Mas os afazeres, os compromissos tantas desculpas! Tanto que fazer, tanto que ser, e tantas são as falhas, que por vezes desejaríamos ser cegos e surdos!

Cegos… para não vermos a miséria dos nossos irmãos. Farrapos, sujidade que a retina dos nossos olhos se recusa a vislumbrar, mas que o coração fixa!

Estou recordando uma família que conheci. Como é possível que dentro daquele casebre não houvesse absolutamente nada, a não ser uma porta e um monte de palha para dormir a um canto! Era esse o seu “jardim de oliveiras”, onde choravam também, tristes e sós…

E dois currais onde viviam duas famílias, divididas por um pátio cheio de montes de estrume. Era ali que as crianças brincavam descalças. Uma delas, sufocada pela tosse, não tinha apetite. Duas postas de peixe, cozidas sabe Deus quando, e cobertas de moscas, eram o seu pequeno-almoço!

E quantas pessoas haverá, como a boa mulher que tratava da nossa roupa, que não conheceu o sabor da carne na sua infância? Depois de ajudar a mãe, durante madrugadas infindáveis, a lavar a roupa do quartel, almoçavam ambas batatas cozidas de véspera… já frias.

Que vontade de trancar essa “janela das traseiras” que nos oferece semelhantes panoramas! Mas como, se o coração já fixou?

Surdos… sim! Para não ouvirmos mais os lamentos, os gritos de fome e sede de caridade, de uma mão amiga, de justiça, de amor…

Senhor, agradecemos-te imenso a liberdade que nos destes, para podermos pensar, agir, escolher, mas ao mesmo tempo, que fardo tão pesado, ao sentirmo-nos assim responsáveis pelos outros! Tu mesmo disseste que pobres há e haverá sempre. Estas palavras poderiam tranquilizar-nos um pouco. Mas, logo a seguir, deixas-nos o “mandamento novo”, que nos inquieta tanto!

Que felicidade se pode sentir ao calor de uma lareira? Nós continuaremos junto dela nas longas noites de Inverno, mas o nosso coração não aquecerá, sabendo que ao nosso lado alguém morre de frio!

Como se pode olhar um “peru recheado”, quando na nossa mente, como num ecrã, passa uma procissão de olhos e bocas famintas? De que nos vale o sabor de uma boa mesa, se nos fica na boca o amargo, a azia de toda esta confusão!

Que pesadelo, Senhor, para os que querem sentar-se tranquilamente junto da lareira, mas não são capazes de ser cegos nem surdos.

Mas, apesar de tudo, Senhor, com todas as minhas falhas e fraquezas, com todo o meu apego à comodidade e egoísmo, eu também quero ver e ouvir (seria demasiado tarde para voltar atrás). Sinto que é tão difícil viver como morrer, e viver neste mundo assim é morrer cada dia num contentamento descontente e numa comodidade que nos faz incomodados, enquanto soubermos que há pessoas que não conhecerão a felicidade, nem contentamento, nem comodidade.

Já não havia fogo na lareira e eu estava gelada, como desejei nesse momento.

Eduarda Manuela Campos