Felizes de nós, Estarreja

Chegou há 44 anos. Batina preta arregaçada e atirada ao ombro esquerdo, motoreta usada, livros e pastas no braço direito, com a alegria luminosa duma manhã de sol, olhar vivo e cativante em alerta permanente. Apanhava-nos no adro, na costeira, na curva de S. Tiago, no portão da escola, na praça… e travava de repente. Depois, dizia quem era, sabia-nos o nome, a família, o lugar, o que fazíamos, os amigos em redor e, quando nos lançava o convite, já nos tinha medido por dentro e por fora e, entrando nos nossos dias, olhava-nos com o coração. Em cada dia, em cada momento, aumentava o número dos que aderiam.

Grupo dos cânticos: Não era um grupo coral. Um de nós em cada banco da igreja, do meio para baixo (do meio para cima encarregava-se ele), para que o povo, ouvindo alguém cantar e responder com convicção, deixasse de “assistir à missa” para participar na Eucaristia. Aprendi então a gostar da celebração do mistério fundamental da vida da Igreja e a não poder passar sem Ela.

SMJ, Serviço Missionário dos Jovens: Encontros, visitas, partilha com os pobres e sozinhos.

Grupo da JOC, Jovens Operários Católicos: Primeiro só rapazes, depois também raparigas. Ver, julgar e agir no meio de trabalho e a partir dele. As noites de reunião, a Doutrina Social da Igreja saída da frescura inovadora do Vaticano II, o empenho e sentido cristão do trabalho, o valor dos jovens trabalhadores, na linha do Cardeal Cardjin, a Solidariedade, a Justiça, a Paz… A descodificação do jornal “Juventude Operária”, quando as bolas pretas ou os traços negros substituíam os textos da mesma doutrina cortados pelos censores do regime. Da oração à vida, o confronto com a Palavra e o entusiasmo da acção programada eram rematados de viola na mão, numa canção que sempre ensinava, como que tomando-nos de assalto benéfico e impetuoso. A conquista era real, semana após semana.

Agrupamento de Escuteiros n.º 233: Uma mão cheia de adolescentes rapazes e dois chefes; primeiro em formação insistente, pontual e sem faltas. Exigência e compromisso semanais que o Padre João tomou em mãos e nunca descurou, traduzindo em saborosas, centenas e centenas de horas de formação nos valores, nos Princípios e na Lei. Sempre dando e pedindo contas em diálogo e incentivo. A tudo e a todos, uma atenção distraída, sempre em acção. Ontem como hoje, um educador criativo, querido por grandes e pequenos.

Acampamentos de felicidade

Podíamos estar horas a fio ouvindo ralhetes ou a presenciar as suas desassombradas atiradelas da motoreta conta a parede por não termos cumprido o combinado, que ficaríamos sempre e voltaríamos no dia ou na semana seguinte com redobrada vontade e erro corrigido. Tenho hoje para mim que o íman espiritual era tão forte nele que transpirava para nós a sedução e o encantamento. Os acampamentos, as tendas, as viagens… Reconheço que ele os pagava praticamente inteiros do seu próprio bolso e, quando durante os mesmos não havia o que comer, ele próprio se encarregava de o buscar a outros de boa vontade, tantas vezes a começar pela sua mãe, a nossa Ti Beatriz. Momentos únicos de felicidade empenhada, onde a pobreza dos materiais e das tendas era sublimada pela alegria fraterna, pela correcção e respeito, pela verdade e pureza de atitudes que nos incutia e que connosco vivia.

A vivacidade com que nos incentivava a estudar, a aprender, a descobrir, a servir no que preciso fosse à comunidade implicava cultura, escola, ensino, aplicação a mais e melhor, nunca para pavonear qualidades, mas sempre e sempre com humildade e para o bem comum. Como padre, professor, ser humano, era assim que o víamos viver. Tal como na passagem evangélica, junto dele, com ele, em numerosos momentos, podíamos exclamar: “Façamos aqui três tendas!”

A Diocese

Fui entendendo porque é que nessa altura o nosso herói tanto forçava a nossa saída a encontros, retiros, acampamentos, movendo pais e mães, julgo mesmo que até os convertendo. Era preciso sair do chapinhar. Escutar outros, aprender o novo, experienciar, saltando os muros altos que nos definhavam. Lembro a riqueza das Semanas de Pastoral na Casa de Mira, onde nunca pagámos nada (quem pagaria?) e não havia autorização de falta: “Já contei convosco”.

A descoberta do Concílio e um novo tempo para a Diocese estavam no caminho. Como nos foram proveitosas em anos seguidos. Depois, o empurrão que nos dava a pensarmos nos serões a partir dos temas dos conferencistas, acompanhando um grupo que normalmente integrava os padres Georgino, Urbino, Victor Zé, Sebastião, Carvalhais, Cartaxo e ele próprio, sempre em calorosos despiques e cristalinas tiradas, e dos quais saía catequese encantadora. Recordo uma noite em que conseguiu fazer com que todos os participantes construíssem um barco moliceiro, navegando na sala ao som da canção encenada, e cuja proa eram os padres Creoulo e Alexandre (os maiores em estatura) e a ré, completamente extasiado, o Senhor D. Manuel! Ninguém ficava de fora. Uma noite fantástica. Um sonho que depois explicou.

Nos meus 16/17 anos, descobri a Diocese e passei a gostar de a integrar.

Seminário, Colégio, paróquias

Os anos passaram. As meninas dos seus olhos estavam lá, agora. Mas continuava a abrir-nos as portas dos seus espaços, fossem visitas rotineiras, fins-de-semana de revisão e reflexão, encontros. Mostrava-nos projectos com a capacidade de organização e trabalho de que éramos testemunhas. Com que alegria deles dava conta e como os víamos concretizados de ano para ano, sempre que no último sábado de Junho nos juntávamos para o “encontro dos amigos do P.e João”. Continuava o conquistador de pessoas, o acolhedor natural e convicto, o sonhador que nunca parava de nos surpreender. Tínhamos, vamos ter sempre, necessidade de estar com ele, pedir um conselho, desatar um nó, escutar as suas palavras compassadas e até os seus silêncios, ver os gestos tão familiares das suas mãos, olhar para os seus olhos que nos adivinhavam. Aquela certeza confiante e segura de quem sabe em Quem colocou a sua Fé era real nele, e nem lutas ou frustrações o levavam a deixar de continuar à aventura permanente. Não raras vezes desconcertava o mais prevenido e confiava sempre. Exemplifico: como em anos e anos seguidos, encontrávamo-nos no dia de abertura do Ano Pastoral, da Igreja Diocesana, de ordenações e outras datas ou acontecimentos celebrados. Em jeito de revista falava-nos de temas importantes: família, amigos, trabalhos, coisas acontecidas e outras que seriam urgentes e sempre, da parte dele, aventuras possíveis, com confiança.

Já lá vão quase três anos, encontrámo-nos no fim da celebração da entrada do senhor D. António Francisco na Diocese e disparou: “Conto contigo para uns serões que vamos ter com gente da Ponte de Vagos. Tal dia, tal hora estás no Colégio e pronto. Do resto trato eu. Depois digo-te o tema”. Eram noites frias, invernia, vem o telefonema. Aponta-me as datas, diz o número de serões, as senhoras que conduziriam os diálogos, os temas, e remata: “Dás o teu testemunho, conversas com eles, nada de palavras caras ou teorias. Ah! e são só homens”. E eu, embasbacada: “Oh… P.e João, mas só homens?… Mas com estas noites eles não vão, é longe…” Pois lá fui, e lá estavam pontualmente as dezenas de homens de variadas profissões e idades. Já iam no 4.º ou 5.º encontro. O diálogo foi participado e, passada hora e meia, duas horas, aparece o P.e João, faz-nos descer ao refeitório e, todos à mesma mesa, partilhámos a refeição que nos serviu e tinha nesse espaço ele próprio preparado. No fim, arrumámos tudo e os homens ainda contribuíram para as despesas. No regresso a casa, já de madrugada interiorizava eu: “Mas que outro homem senão este padre, teria tido tal ideia e a concretizaria assim com gosto?”

De há um ano…

Cada visita foi um espaço de vida profundamente gravado. Às vezes suave. Às vezes violento. Sempre doloroso, mas também sempre enternecedor. No silêncio, na inquietação, na dúvidas, nas certezas, com a família ou na cama do IPO. A teologia da e a realidade da dor, da Graça, da Eucaristia, da experiência de novas formas de evangelização, da preocupação pelos padres, pela missão e vocação, dos métodos e projectos educativos, da Igreja acolhedora que terá de ser sempre e mais… do sentido da doença.

A sensibilidade para o sofrimento das irmãs que o mimavam, dos cunhados e sobrinhos que se revezavam, de quantos perguntavam e rezavam por ele, de quem clinicamente o tratava e a ordem “senta-te aí”, até à Avé-Maria que rezou connosco e à bênção que nos deu!

Na penúltima quinta-feira, baixinho: “Sabes a água fresca a correr que uma vez me falaste?… Não posso…”

Agora

Só pode ecoar em nós a sua total doação e amor às pessoas concretas, a sua vida tão valiosa quanto humilde, o seu dom único de criar laços e pontes, a sua acção frutificadora de Mestre e Pastor, o seu fidelíssimo caminho ao serviço daquele que o escolheu e em favor do enriquecimento espiritual e humano de quantos com ele se cruzaram.

Felizes de nós, porque nele encontrámos a ternura e a sabedoria, o carinho e o entendimento, a mão firme e vigorosa que ampara, sustenta, reparte e detém!

Maria da Conceição Fernandes