“Zeloso até ao limite das forças humanas”

Padre Valdemar Alves da Costa (1931-2009) Excertos da homilia de D. António Francisco, Bispo de Aveiro, no funeral do P.e Valdemar

Todos sabíamos que a saúde e as forças humanas do Padre Valdemar se iam fragilizando de dia para dia. A sua figura nobre, como árvore levantada da terra a apontar sempre no porte distinto do seu perfil de asceta a dimensão das alturas e da transcendência, cedia lugar a um corpo marcado pela cruz da doença e pelo peso do sofrimento.

Nas visitas que lhe fiz, nunca lhe ouvi um queixume nem nunca lhe apercebi um lamento. Diminuíam as palavras mas permanecia a serenidade transbordante de uma vida de paz e sempre o acompanhou o seu jeito delicado e inconfundível da gratidão.

Despedia-se sempre de mim, quando o visitava no Hospital ou nesta casa paroquial que para a Igreja construiu, com o gesto distinto de sempre, acompanhado do habitual “obrigadíssimo, senhor bispo” a que desde sempre me habituara.

Quando anteontem, apenas regressado do Simpósio do Clero de Fátima, me dirigia ao Hospital de Aveiro acompanhado de um sacerdote e dois seminaristas para o visitar já quase à porta da sua enfermaria recebi, através do olhar comovido de outro sacerdote, a notícia dolorosa da sua morte. Recolhi-me por um momento junto dele, em oração a Deus, a intuir as suas últimas vontades e a pedir a sua tão necessária bênção. (…) Deus ainda não dera tempo ao Presbitério, à Igreja de Aveiro nem ao seu Pastor para nos refazermos da dor e aliviarmos a falta imensa que a morte do Padre João Mónica, falecido na semana passada, nos trouxe. Pede-nos agora o sacrifício de vermos partir um outro. É um mistério insondável de dor que pela fé sabemos ser mistério de graça. (…)

Se nos pedissem para definir em poucas palavras uma vida como foi a vida do Padre Valdemar, correndo sempre o risco de fechar em palavras a torrente imensa da vida e a grandeza da história que nenhuma palavra pode conter, diríamos que “foi uma vida dada a Deus, no serviço da Igreja, para bem de todos nós e vivida na fé, na obediência e na caridade”.

(…) Quis morrer no exercício do seu múnus. Aqui desejava viver até ao fim e aqui quer repousar para sempre. Sempre obediente, na simplicidade e na verdade, aos seus bispos também o seu bispo quis respeitar a sua vontade e quer cumprir as sua últimas disposições. Continuará no meio do povo a quem inexcedivelmente serviu e a quem se deu por inteiro.

Zeloso até ao excesso do dom da vida e até ao limite máximo das forças humanas, o Padre Valdemar foi um sacerdote exemplar e um pastor generoso. Fez da oração permanente, da disponibilidade constante, do acolhimento delicado, da atenção igual a todos, do testemunho de uma vida sóbria e despojada e da sua forma humilde, discreta e quase silenciosa de viver o paradigma de sacerdote em todo o tempo e a tempo todo.

Ampliou e construiu Igrejas e edificou a bela Casa Paroquial da Comunidade cristã da Branca. Mas mais importante do que tudo isso foi construindo nos corações de tanta gente humilde e simples a Igreja de pedras vivas que é a Igreja de Jesus Cristo.

E é este jeito de ser pastor à maneira do santo Cura d’Ars, que neste Ano Sacerdotal e sempre nos é apresentado como exemplo, que mais necessário se faz hoje. É este modo de ser pastor, aquele que mais dura no tempo, que melhor constrói a Igreja e mais interessa ao mundo que queremos salvar. O Padre Valdemar permanecerá para sempre junto de Deus e junto de nós.