Questões Sociais Uma crítica feita à encíclica «Caritas in Veritate», de Bento XVI, é a de ser ingénua em relação à economia de mercado. A encíclica não a condena e, pelo contrário, assume-a como realidade positiva. Por isso, afirma que: «A sociedade não tem que se proteger do mercado, como se o desenvolvimento deste implicasse «ipso facto» a morte das relações autenticamente humanas» (nº. 36). Nesta conformidade, «não é o instrumento (a economia de mercado) que deve ser questionado, mas sim o homem, a sua consciência e a sua responsabilidade pessoal e social» (ibidem).
A encíclica até valoriza o mercado, reconhecendo que ele, «se houver confiança recíproca e generalizada, é a instituição económica que permite o encontro entre as pessoas, na sua dimensão de operadores económicos (…)» (nº. 35). E, invocando Paulo VI, na «Populorum Progressio», nº. 38, considera desejável «um modelo económico de economia de mercado capaz de incluir, pelo menos intencionalmente, todos os povos (…)» (nº. 39).
Será ingénuo este reconhecimento das virtualidades do mercado? – Para uma parte significativa do pensamento dominante, parece que sim: o pensamento pró-capitalista e o anti-capitalista entendem que a aceitação do mercado implica a aceitação do capitalismo; portanto, é irrealista defender o contrário. Porém , em abono do realismo da encíclica, note-se que, segundo ela, a aceitação do mercado não significa a confiança ilimitada nele; com efeito, «a actividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil» (nº. 36). Precisamente, a absolutização do mercado e a falta de ética é que levaram aos extremos da desregulação tornada patente na crise actual. Isto é afirmado não só na encíclica mas também por várias correntes de pensamento.
Será ingenuidade reconhecer as virtualidades do mercado, sem o absolutizar? Ou será clarividência? – Neste reconhecimento, aceita-se a realidade «mercado», e preconizam-se alterações para que ele funcione ao serviço do bem comum. Pelo contrário, na defesa do capitalismo absoluto e na do colectivismo estatal, aceita-se o «realismo» de forças opressivas que comprometem o futuro.
Deve notar-se que a encíclica, ao reconhecer as virtualidades do mercado, não faz a opção por um determinado sistema económico. Deixa o campo aberto para opções muito diversificadas, como por exemplo: o mercado regulado; a economia social de mercado; a economia mista; o socialimo não colectivista; a democracia socialista…
