Como gerir a crise provocada pelo “Código da Vinci”
Pedro Gil, director do gabinete de imprensa
do Opus Dei
“Numa crise, pensámos: «Isto não pode estar a acontecer». Para a seguir constatar: «Isto está mesmo a acontecer». O caso do “Código da Vinci” [livro e filme] e o que se disse sobre o Opus Dei representou uma crise com que a instituição teve que lidar. Levou-nos a pensar que as percepções do público são tão importantes como os factos e que os sentimentos têm prioridade sobre a verdade dos factos. Deve-se evitar, por exemplo, calar a mensagem da Igreja só para evitar a crise ou dizer: «Não tenho comentários a fazer». Se a organização não falar, alguém vai fazer.
Esta crise representou, no entanto, uma oportunidade de mudança, de reconhecimento do papel fulcral dos gabinetes de imprensa, de consciência da necessidade de pessoas identificadas com a instituição e disponíveis para os jornalistas. Apesar de tudo, houve alguns efeitos positivos. Há gente que teve catequese por causa [das dúvidas e erros] do “Código da Vinci”. E há quem diga: «Sou Opus Dei graças ao “Código da Vinci”».
Imagem, cara e voz da instituição
Júlio Magalhães, director de Informação da TVI
“O porta-voz é a imagem, cara e voz da instituição. As instituições como a Igreja têm de saber lidar bem com a comunicação social, que tem um tempo próprio e precisa de respostas rápidas.
O porta-voz tem de perceber bem junto das hierarquias a informação que é para passar. E esta tem de limitar-se a duas ou três mensagens rápidas, curtas e eficazes. Mas atenção: não pode haver meias verdades. Uma meia verdade é uma meia mentira. Perante um problema, é necessário evitar a tendência «vamos dizendo isto para pensar no que a seguir vamos dizer».
É preciso ter em conta que a generalidade do país, quando chega a casa, a primeira coisa que faz é ligar a tv.
O poder da comunicação ultrapassa os profissionais que lá trabalham”.
Pluralidade das vozes da Igreja em Portugal
Octávio Ribeiro, director do Correio da Manhã
“É fácil bater na Igreja e nada acontecer. Reconheço que nem sempre o critério jornalístico é o mais correcto em relação ao que o Papa diz. E julgo que a Igreja não está a ocupar o espaço comunicacional que deveria ocupar.
Quando a Igreja espirra, o «Correio da Manhã», constipa-se, para o bem e para o mal. Olhamos para o que se passa com os valores médios, que vão os grandes valores cristãos. É esse o nosso olhar matriz.
Gosto da pluralidade das vozes da Igreja em Portugal. É uma riqueza que não se deve perder”.
Fenómeno de comunicação desde há 2000 anos
Cunha e Vaz, director de empresa de assessoria e de comunicação institucional
“A Igreja é o maior fenómeno de comunicação desde há 2000 anos. Mas tem uma consciência comunicacional que não se adapta facilmente aos tempos de hoje. Vivemos numa época em que há menos tempo e mais gente a comunicar. A Igreja tem muitos centros. Também nela se aplica aquele princípio: o que puder ser decidido a nível local, não deve ser decidido a nível central.
Gabinetes de imprensa ou agências de comunicação? O nome não importa. Os formalismos não se compadecem com o que queremos fazer: ser «brokers» [mediadores] da informação. As entidades têm de fazer apostas significativas”.
