Dentro da cabeça de uma jovem muçulmana europeia

Livro A maior amiga de Jasmim é Amira, que tem 23 anos e está prestes a casar-se com Shedi. Jasmim está preocupada porque a mãe do noivo de Amira, uma senhora de valores muçulmanos tradicionais, quer que a quase nora faça um teste de virgindade. Jasmim recebeu de Amira uma mensagem que diz: “Socoooorro! Futura sogra propõe, ou antes, impõe, visita ao ginecologista (o dela). Objectivo: verificar a necessária e imprescindível imaculada condição para desposar o seu santíssimo filho. Achas que é grave?”. É só o início.

“Hoje talvez não mate ninguém” é um livro muito bem escrito e muito leve, cheio de sugestivos diálogos entre amigos e em família. Passa-se numa família muçulmana, de boa condição social, a viver na Europa, mais concretamente na Itália.

O título do livro é obviamente irónico. Remete para o que os ocidentais podem pensar sobre os muçulmanos após o 11 de Setembro. Por isso mesmo, se há alguém que a protagonista detesta é a jornalista Oriana Fallaci, que após a queda das torres nova-iorquinas escreveu de forma indecente sobre os muçulmanos, como se estivesse iminente a proibição das bebidas alcoólicas na Europa e a pena de morte para quem as beba, a proibição da minissaia, a obrigação do chador e o leite de camela…

E por isso mesmo (outra uma vez), entre os muitos desejos de Jasmim, (“que o Shedi deixe de parecer com um orangotango… para bem de Amira”, “que a minha celutite desapareça”, “que Roberto Benigni venha a ser primeiro-ministro”, “que eu deixe de pisar cacas quando ando na rua”, “que Israel deixe de Matar”, “que o Hamas deixe de matar”), está este: “Que os jornalistas furiosos não cuspam veneno sobre nós, e que os racistas, os intolerantes e os medrosos não dêem ouvidos a jornalistas furiosas”.

A autora

Randa Ghazy nasceu em Milão, filha de pais egípcios. Em 2002, com quinze anos, publicou o seu primeiro romance, o aclamado “Sonhando com a Palestina”, que já foi traduzido em quinze línguas. Estuda Relações Internacionais e quer ser jornalista, aprender uma vintena de línguas estrangeiras, viajar e continuar a escrever romances.