Em 2009 completam-se 400 anos sobre as principais observações astronómicas de Galileu e 200 e 150 anos sobre o nascimento de Darwin e a publicação de “A Origem das Espécies”. Estes dois cientistas mudaram a forma como entendemos o mundo. O primeiro, na senda de Copérnico, significou o fim das concepções que punham a Terra e o ser humano no centro do universo. O segundo veio dizer que o ser humano, como os outros seres vivos, descende de espécies menos evoluídas. Ambos provocaram conflitos fé-ciência. As teorias científicas colidiam com o geocentrismo bíblico e com a origem divina de Adão e Eva. Obrigaram a reler as Escrituras e a repensar o lugar do ser humano no mundo. Textos de Jorge Pires Ferreira
Quem entra na Basílica de Santa Croce, em Florença, depara com os túmulos de três grandes vultos da humanidade: Miguel Ângelo, o artista preferido dos papas; Maquiavel, pensador da política, e Galileu Galilei, o cientista condenado pela Igreja. Mas como pode estar Galileu sepultado no interior de uma igreja, num magnífico túmulo, se foi condenado pela Inquisição como se diz? Algo não bate certo.
Galileu é o símbolo da oposição entre fé e ciência, entre Igreja Católica e investigação científica. É invocado como exemplo do suposto obscurantismo da Igreja; o seu caso é tido como protótipo do cientista perseguido.
Em 2009, voltou-se a falar de Galileu. Precisamente há quatrocentos anos, com uma luneta (que não inventou mas aperfeiçoou), observou as crateras da Lua, descobriu que a Via Láctea é composta por milhões de estrelas (e não uma “emanação”, como se pensava e o nome sugere) e descobriu quatro das luas de Júpiter. Deu início à Astronomia como ciência. Até então estava muito misturada com a astrologia.
Em Maio passado, a Santa Sé promoveu um congresso internacional sobre “o caso Galileu”. As actas ainda não foram publicadas, mas os dados divulgados nos últimos tempos pelos historiadores da ciência, se não desculpabilizam a Igreja, pelo menos melhoram a sua imagem nesta fotografia para a qual geralmente se olha com óculos deformadores.
Vejamos. Diz-se que no final do julgamento que remete Galileu ao silêncio sobre o heliocentrismo (o Sol no centro e a Terra girando à sua volta), ele teria murmurado: “Eppur, si muove” [“E, no entanto, ela move-se”]. O facto não está documentado. Trata-se de uma expressão associada a Galileu muito depois da sua morte.
Por outro lado, ao contrário do que se pensa, Galileu, que é sem dúvida um dos maiores génios científicos de sempre (pelo método experimental, pelos estudos de Mecânica, pela aplicação da Matemática à realidade, pela Astronomia…), não prova o heliocentrismo. Galileu invoca como prova uma explicação solar das marés que foi “sem sombra de dúvida, o maior disparate que alguma vez escreveu”, como afirmou Claude Allègre, em “Deus e a Ciência” (obra publicada numa parceria entre a Gradiva e a Universidade de Aveiro). Muitos anos mais tarde, Newton explicará as marés através da Lua e não do Sol, como pretendeu o cientista italiano. Galileu estava certo quanto à imobilidade do Sol em relação à Terra, mas não o conseguiu provar (tinha como argumento credível a observação das fases de Vénus, no entanto tal não foi suficiente para arrebatar adesões). Estava convencido de que tinha razão. E tinha. Mas em ciência são necessárias as provas.
Hoje, há novas perspectivas para avaliar o “caso Galileu”. Surge entre historiadores e teólogos uma nova visão que diz que este caso não é tanto de oposição entre fé e ciência, mas mais de guerrilha entre poderes dentro e fora da Igreja – o que não deixará de ser relevante e, em certo sentido, continua a ser um contra-testemunho do cristianismo. Contribuiu para estes dados que estavam esquecidos o pedido de reavaliação de João Paulo II. Em resumo, porque as páginas de um jornal são insuficientes para as explicações necessárias, no caso Galileu houve duas lutas, uma entre jesuítas e dominicanos e outra entre católicos e protestantes.
A primeira tem a ver com a rivalidade entre estas duas ordens religiosas. Galileu era amigo dos jesuítas, que na altura criaram o Colégio Romano, prestigiada instituição de ensino científico que aprofunda as observações de Galileu (nota-se que foi o jesuíta português Manuel Dias que, logo em 1614, levou o telescópio para a China). Ora, os dominicanos mandavam no Santo Ofício. Numa altura de centralização do poder face à ameaça protestante, as ideias de Galileu (e não o próprio Galileu, como nos casos de heresia) são apanhadas no turbilhão. Mas Galileu, que era o cientista mais prestigiado, é defendido por jesuítas, mesmo sendo estes injustamente criticados numa obra de Galileu, que também satiriza Urbano VIII (jesuíta). Este papa, contudo, nunca chega a assinar o decreto de condenação das ideias de Galileu, certamente lembrando-se na amizade que os unia no passado. Tal explica que o católico Galileu (teve duas filhas freiras) esteja bem sepultado.
A segunda luta é a que divide toda a Europa. A reforma protestante está em curso. Tanto a Igreja católica como os protestantes querem ter a seu favor a investigação científica. Se a Igreja católica recusa o heliocentrismo, os protestantes vão apoiá-lo, ainda que os cientistas demorem décadas a prová-lo.
A verdadeira consequência nefasta do caso Galileu é que a ciência pôde desenvolver-se livremente nos países protestantes (em parte por causa do livre arbítrio que também se aplicava às Escrituras e que causou sucessivas divisões religiosas), enquanto nos países católicos, ligados a Roma, num tempo em que o Papa era a autoridade não só religiosa, mas também temporal e mesmo científica, assiste-se a uma subalternização científica. Não é a fé que se opõe à ciência. O próprio Galileu escreveu sobre isso (ver texto nesta página). As questões de poder é que inquinam tudo.
Galileu Galilei
1564 – (15 de Fevereiro) Nasce em Pisa
1609 – Observações de Galileu que revolucionam a astronomia
1611 – Galileu apresenta as suas descobertas aos jesuítas, que as aperfeiçoam
1616 – Primeira admoestação do Santo Ofício contra o heliocentrismo de Galileu
1623 – Eleição de Urbano VIII, papa amigo de Galileu
1633 – Galileu é condenado a permanecer na sua casa de campo, em Florença, e proibido de ensinar o heliocentrismo.
1642 – (8 de Janeiro) Morre em Florença
1757 – Bento XIV autoriza a interpretação simbólica da Bíblia relativamente ao Sol.
1979 – João Paulo II diz à Pontifícia Academia das Ciências que é necessário rever o caso Galileu.
1992 – João Paulo II reconhece o erro dos teólogos do séc. XVI e o caso Galileu fica finalmente encerrado.
“Eu aqui direi aquilo que ouço a um eclesiástico de posição muito elevada, isto é, que a intenção do Espírito Santo era ensinar-nos como se vai para o céu, e não o referente ao céu”.
Galileu Galilei
Como e onde ver as luas galileanas?
No dia 3 de Outubro, a partir das 21h30, na sede do FISUA (Associação de Física da Universidade de Aveiro – Campus de Santiago), o Observatório Astronómico de Mira e de Aveiro organiza uma sessão de observação de Júpiter e das luas descobertas por Galileu há 400 anos. A iniciativa, de entrada livre, insere-se no Ano Internacional da Astronomia.
