Darwin ou como a Biologia confundiu as Sagradas Escrituras

O que há de novo na explicação de Darwin não é a ideia de evolução dos seres vivos, já presente em outros cientistas e até em Santo Agostinho, mas a da evolução através da selecção natural e sexual dos mais aptos. Para a mentalidade popular, já no tempo de Darwin, tudo se resumiu a “o homem descende dos macacos”, o que não corresponde ao seu pensamento, embora assim o caricaturassem. Na sociedade anglicana, as teorias de Darwin, que em jovem chegara a iniciar estudos eclesiásticos, provocam amplos debates teológicos, muito para além do que o cientista pretendia. Coleccionou provas, em grande parte recolhidas na viagem do Beagle, e propôs e teoria que melhor explicava os factos. Mas rapidamente as suas conclusões colidiram com diversas passagens da Bíblia, ainda frequentemente interpretada à letra. Como conciliar a teoria científica da evolução com a fixidez bíblica? As eras geológicas de milhões de anos com a aparente duração bíblica de seis mil anos? Os hominídeos com Adão e Eva? Onde fica o pecado original?

Na Igreja Católica, o maior embate oficial entre as ideias de Darwin e o dogma não chegou a acontecer. Mas faltou pouco. Escreve Jacques Arnould em “Requiem por Darwin”: “Quando de uma reunião preparatória [para o Concílio Vaticano I], em Maio de 1869, um dos participantes mostra-se preocupado com a teoria que faz do homem um produto da evolução da matéria e, no decurso do Concílio propriamente dito, não faltam alusões aos trabalhos de Darwin. Os dois esquemas sobre a doutrina católica sucessivamente elaborados prevêem que se declare como sendo dogma da fé a definição da descendência de todos os homens a partir de um único casal (o que é costume chamar-se monogenismo); com efeito, parece impossível conciliar a outrina do pecado original com a ideia de uma humanidade proveniente da animalidade, tal como a ideia de um casal original e único, formado por Adão e Eva, com a imagem de pequenos grupos de macacos. Algumas vozes, como a de Mons. Vérot, admiram-se de que a Igreja possa considerar sem valor as descobertas da geologia e da paleontologia. Contudo, parece que nada consegue impedir que o monogenismo seja considerado dogma e assuma um valor coactivo; nada, a não ser a guerra de 1870, cuja consequência foi a interrupção do Concílio”. O Vaticano I não voltou a ser convocado e evitou-se, felizmente, o que poderia ser a condenação do evolucionismo biológico.

Hoje, a teoria da evolução de Darwin é amplamente aceite pela Igreja católica (mas não as consequências materialistas e sociais que alguns pretendem daí extrair), ao contrário de outras igrejas, geralmente apegadas a uma interpretação literal da Bíblia. João Paulo II escreveu em 1996 que a “teoria veio-se impondo progressivamente à atenção dos pesquisadores, depois de uma série de descobertas feitas nas diversas disciplinas do saber. A convergência não procurada nem provocada dos resultados dos trabalhos conduzidos independentemente um dos outros constitui só por si um argumento significativo a favor dessa teoria…”

Entretanto, os estudos bíblicos evoluíram muito. Os mitos e relatos da criação deixaram de ser interpretados literalmente para se descobrir que afinal são ainda mais belos. A esfera da ciência (que explica o como, mas não alcança o porquê final) e a da fé são diferentes mas complementares. Dialogam. E é desse diálogo, nem sempre isento de tensões, que o ser humano retira mais sentido para a sua existência.

Charles Darwin

1809 – (12 de Fevereiro) Nasce Charles Darwin, em Shrewsbury, Inglaterra.

1831 – Inicia a viagem de cinco anos a bordo do Beagle, que possibilitará as investigações para fundamentar a sua teoria.

1859 – Publica “Sobre a Origem das Espécies por meio da Selecção Natural ou a Conservação das Raças favorecidas na Luta pela Existência”, mais conhecido por “A Origem das Espécies”.

1871 – Publica “A Origem do Homem e a Selecção em Relação ao Sexo”.

1882 – (16 de Abril) Morre em Kent.