Temos de dar atenção aos alertas de Bento XVI

Bento XVI visita a República Checa de 26 a 28 de Setembro. Este país do centro da Europa é um dos mais marcados pelo ateísmo e indiferença. Com a comitiva papal, viaja Aura Miguel. A jornalista da Rádio Renascença que desde 1987 acompanha o Papa nas suas viagens apostólicas é a única portuguesa com acreditação permanente na Santa Sé

Correio do Vouga – Tem uma grande admiração por João Paulo II, que conheceu pessoalmente em 1987. Descreveu esse primeiro encontro assim: “O olhar era penetrante e a fisionomia sorridente. Beijo-lhe o anel pontifício e, entusiasmada pela sua afabilidade, falo-lhe do amor que os jovens portugueses têm ao Papa e digo-lhe que rezo todos os dias por ele”. Continua a admirar o Papa polaco?

Aura Miguel – Aprendi e cresci na fé com João Paulo II, e gosto muito de João Paulo II, mas agora Nosso Senhor deu-nos como papa Bento XVI. Sou chamada a o-lhar para ele com a mesma disponibilidade de coração com que olhei para João Paulo II. Viver intensamente passa por olhar e seguir e até admirar o actual Papa. Muita gente ainda está presa ao papa anterior. Isso é injusto e até, em última análise, uma falta de fé. Agora o Papa é este e é para este que temos de olhar. Não podemos ficar presos ao antigamente.

O que admira em Bento XVI?

Bento XVI é um homem com uma grande lucidez e com um grande sentido de emergência. Pelo facto de ter sido eleito com 78 anos, quando se queria reformar, é bom prestarmos atenção aos seus alertas. Penso que ele tem a noção de que o tempo é breve. As coisas que ele tem dito são muito importantes para diagnosticarmos o nosso tempo.

Na perspectiva de quem acompanha de facto o Papa, quais são os grandes alertas que ele tem deixado?

Penso que o primeiro vai para o perigo da “ditadura do relativismo”. A fé adulta não escolhe aquilo em que quer ou não acreditar, mas segue com coragem as indicações da Igreja e dos seus pastores, mesmo que isso seja contracorrente e que mereça os ataques do mundo. O Papa tem vindo a dizer que o Ocidente está ferido de morte porque não consegue usar a razão plenamente. Estamos viciados. Desde a Revolução Francesa, na Europa, parece que há uma incompatibilidade entre Fé e Razão. Este Papa vem dizer o contrário. Temos a razão atrofiada. Alargar o uso da razão só beneficia a própria fé. Uma e outra são articuláveis. E esta articulação é evidente no pensamento do Papa. Vemo-la por exemplo na última encíclica, a “Caridade na verdade”, no fundo, Fé e Razão. Isso repassa por todos os sectores da vida. Mexe com a economia, os sindicatos, o ambiente, etc.

Além do relativismo, que outros assuntos sobressaem no pensamento do Papa?

Bento XVI tem realçado a importância do aprofundamento da fé. Já não dá para ter uma adesão só sentimental, sociológica. Tivemos épocas em que por tradição assim era. Mas hoje isso não chega. Agora é preciso um trabalho pessoal de encontro com Deus. Bento XVI tem chamado a atenção para isto. No panorama mundial, a Europa é a região geográfica que está mais viciada. Tem a vida facilitada, mas está cansada da fé. Há imenso bem-estar por todo o lado. Podemos dar-nos ao luxo de ir à missa que dá mais jeito… Se sairmos da Europa, vemos locais onde ser católico implica saber dar razões, quer por causa de perseguições políticas, quer por serem uma minoria. Estou a pensar na Terra Santa ou no Líbano, onde é difícil ser cristão. Ou nos EUA, onde ser católico, continuar na Igreja atingida pelos escândalos da pedofilia, implica saber dar as razões para se querer continuar ali. O resultado é vermos católicos com muita convicção, adultos na fé que sabem dar as razões. Na Europa não é assim.

Em Portugal é diferente? Imperam a indiferença e o relativismo?

Portugal é igual ao resto da Europa. Talvez haja mais a ilusão de que tudo está bem por sermos um país de brandos costumes, onde não há grandes confrontos. Não acho que devamos ter um contexto de martírio, é claro, mas se houvesse um contexto que nos provocasse, viria ao de cima a real pertença.

Como é ser a única mulher no avião do Papa?

Sou a única portuguesa com acreditação permanente na Santa Sé e que anda no avião do Papa, mas há outras mulheres. Somos poucas, mas não sou a única.

Tem algum privilégio fazer parte da comitiva?

Sim. O principal é o Papa falar connosco durante a viagem. Este é mais tímido. O outro procurava mesmo a nossa compa-nhia. Muitas vezes chamava-nos só para dizer “olá”. Este é mais reservado. É a sua maneira de ser. Aproveita a viagem para ler e trabalhar, embora também fale com os jornalistas.

Há outras vantagens. Porque somos sempre os mesmos jornalistas, podemos aprofundar alguns assuntos. Há quem venha passear para a coxia para conversar connosco. Por outro lado, temos facilidades do ponto de vista logístico. A partir do momento em que entramos no avião passamos a ter protecção diplomática da Santa Sé. Fazemos parte da comitiva do papa. Temos facilidade de acesso às cerimónias papais e podemos entrar em sítios onde a maioria dos jornalistas não entra. Também temos acesso aos discursos com mais antecedência. Há um conjunto de facilidades que possibilitam trabalhar de outra maneira.

Considera que o Papa é mal-entendido pela comunicação social, que o sentido das suas palavras é deturpado?

Muitas das coisas que se dizem do Papa não são necessariamente as coisas certas e as coisas verdadeiras. Há muitos interesses e muita manipulação. A quando da visita a África, falou-se da questão do preservativo de uma maneira distorcida em relação àquilo que o Papa tinha dito a bordo do avião. A frase foi propositadamente distorcida, porque retirada do contexto. Por outro lado, a comunicação social omitiu a realidade muito forte que é a acção da Igreja em Angola e nos Camarões. Não referiu a pertença cristã onde a vida é difícil, a acção da Igreja na promoção das pessoas, da luta contra a pobreza, na educação, na saúde…

A comunicação social anda distraída?

Parece-me que sim. Na Europa, onde temos todas as facilidades e levamos uma vida acomodada, andamos anestesiados com tantas possibilidades de distracção. O essencial passa ao lado.

Entrevista conduzida por

Jorge Pires Ferreira