Os rotários aveirenses lançaram o programa “Apadrinhar uma criança” para apoiar a escolaridade crianças do 1.º ciclo de famílias com poucos recursos
Há crianças a quem “sobra a ambição, mas faltam os incentivos”. Sem uma ajuda exterior à família, dificilmente poderão tornar-se cidadãos em sentido pleno. São estas as ideias de fundo que levam o Rotary Club de Aveiro (RCA) a criar o programa “Apadrinhar uma criança”. Trata-se de “criar condições para que tenham umfuturo risonho”, afirmou Paulo Pinho, governador do RCA, que adiantou que o projecto vem na linha de outros assumidos pelos rotários, como o Banco Alimentar Contra a Fome (iniciado em Aveiro pelo RCA) ou o Banco de Material Ortopédico.
“Apadrinhar uma criança” consiste em prestar apoio a um aluno do ensino básico público do concelho de Aveiro. A identificação das crianças que precisam de apoio ficará à responsabilidade da Cáritas Diocesana, que é a entidade “gestora do projecto”. A ajuda pode ser dada segundo três modalidades, como informou a rotária Carla Tavares: “Apoio financeiro, apoio efectivo no acompanhamento escolar”, nomeadamente contactando com pais e professores, e “apoio em outro tipo de cuidados”, como seja a compra de óculos ou de um aparelho auditivo para crianças necessitadas. O projecto segue o modelo de apadrinhamento de crianças africanas à distância preconizado por algumas ONG, como referiu a rotária.
O protocolo assinado entre o RCA e a Cáritas, na noite do dia 22 de Setembro, conta com o patrocínio do antigo ministro e colaborador do Correio do Vouga António Bagão Félix, que considerou a iniciativa dos rotários “um acto de magistratura social preventiva e personalizadora”, uma “atitude contra o conformismo e a indiferença”, uma “acção contra a violência do silêncio”. Comentando a assinatura, o presidente da direcção da Cáritas, diác. José Alves, congratulou-se: “Estamos gratos não por se terem lembrado de nós, mas sim das nossas crianças”. O governador do RCA, por seu turno, espera que o projecto signifique “uma melhoria do futuro de muitas crianças”. Para já, destina-se apenas ao 1.º ciclo, mas pode vir a alargar-se aos 2.º e 3.º ciclos.
Na cerimónia, durante um jantar, além dos membros do clube, estiveram o Bispo de Aveiro e representantes da Câmara Municipal e do Governo Civil de Aveiro.
J.P.F.
“Temos de ser decentes para as nossas crianças”
António Bagão Félix aceitou associar o seu nome à iniciativa e proferiu uma breve palestra sobre “a criança, futuro da esperança”. O antigo ministro das Finanças (“ministro não é currículo; é cadastro”, disse num à parte, citando outro ex-ministro) notou o perigo de as crianças entrarem rapidamente na adolescência – “queimar etapas é criar adultos com falta de equilíbrio e de harmonia no seu interior” – e defendeu a “prioridade à família” e não ao Estado quando se trata da educação. “Se a família for melhor, a sociedade é melhor. E não o contrário. Não há sociedade de bem-estar que se fundamente em famílias de mal-estar”, disse. Bagão Félix afirmou que a tarefa educativa global pertence à família, a qual delega uma parte (a do ensino) à escola. Errado será pedir toda a educação à escola. Na mesma linha, afirmou que “o Estado não tem vocação afectiva nem inteligência emocional” e “tende a reduzir tudo a grupos etários e arquétipos”.
Sobre as crianças institucionalizadas notou que é “inevitável” reformar das instituições de acolhimento e agilizar os processos de adopção. A Casa Pia é um “símbolo de massificação e despersonalização”, disse. E “a massificação é um inimigo do direito à esperança”, acrescentou.
Por outro lado, sobre as crianças em risco, observou que o ordenamento jurídico que estipula “o superior interesse da criança” leva aos resultados mais díspares, consoante o juiz, e defendeu a mudança de leis como a que diz que a comissão de protecção de menores tem de ouvir o agressor. De lamentar, também, é a lentidão dos tribunais, ainda mais quando se trata de processos com crianças. “O tempo da justiça não é o tempo de uma criança. Três ou quatro anos nos meandros da justiça pode ser a totalidade do tempo de ser criança”. Num apelo final, afirmou: “Temos de ser decentes para as crianças”.
