Não há desenvolvimento, sem verdade, justiça e caridade

Com a participação interessada e interveniente de seis dezenas de pessoas, a paróquia de Oiã dedicou duas noites à reflexão sobre a encíclica “A Caridade na Verdade” (“Caritas in veritate”, CV), nos dias 20 e 21 de Janeiro. Orientou a reflexão Jorge Pires Ferreira, após o acolhimento e introdução do pároco, P.e Manuel Mário Ferreira.

Deixam-se aqui as ideias principais desta carta aberta do pensamento papal (e eclesial) sobre questões e de economia e política, centradas no tema do desenvolvimento no mundo actual. Por vezes a CV é considerada “difícil”, mas vale a pena acolher os seus princípios e valores. Permitem olhar para o mundo com um olhar mais crítico mas também esperançado, ao mesmo tempo que podem iluminar a acção social dos pequenos grupos cristãos.

A primeira afirmação da encíclica é chave de leitura. “A caridade na verdade (…) é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira”. Inverte a ideia tradicional de que “é preciso dizer a verdade na caridade”, que normalmente resulta em prejuízo da verdade, e faz pensar que vivemos num tempo em que a ilusão, a mentira, o relativismo, os interesses se sobrepõem à verdade. Abundam exemplos disso, dos motivos para a guerra e da sobrevalorização dos “direitos dos animais” às leis sobre o aborto ou sobre o casamento. A sociedade altamente mediada pelos meios de comunicação social sugere que o simulacro se tome por realidade. Tomás de Aquino dizia: “As pessoas querem ser enganadas. Devemos enganá-las?” A resposta do sábio medieval era: “Não”. A de hoje é: “Se elas querem…”

Bento XVI faz um balanço decepcionado sobre as esperanças de desenvolvimento de Paulo VI, que em 1967 publicara a “Populorum progressio”, sobre o “Desenvolvimento dos povos”, e realça que o mundo precisa de quem se preocupe com o bem comum (bem ligado à vida social das pessoas; o caminho institucional e político da caridade), com amor (que é “dar ao outro do que é «meu»”) praticado sobre a justiça (“que induz a dar ao outro o que é «dele», o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir”).

O formador sintetizou em doze ideias o pensamento de Bento XVI, não deixando de realçar a necessidade de leitura do documento, que é mais fácil, directo, consequente e prático do que o de outras encíclicas papais.

As doze propostas de Bento XVI:

1. Gratuidade e dom nas relações económicas e políticas, entre pessoas e entre nações. Um exemplo: o voluntariado.

2. Espírito empresarial precisa-se. No público e no privado. Os pobres também podem ser empreendedores. A pobreza não é um destino.

3. Orientar a globalização em termos de relacionamento, comunhão e partilha.

4. A partilha dos deveres recíprocos mobiliza muito mais do que a mera reivindicação de direitos.

5. Políticas que promovam a centralidade e a integridade da família.

6. Correcto relacionamento do ser humano com o ambiente natural.

7. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família. O fundamento último da fraternidade é a Trindade.

8. A razão tem necessidade de ser purificada pela fé (a duas asas do espírito humano, dizia João Paulo II).

9. O princípio da subsidiariedade (não façam os de cima o que podem fazer os de baixo) há-de ser mantido estritamente ligado com o da solidariedade (o dever de todos se preocuparem com todos) e vice-versa.

10. Coligação mundial em favor do trabalho decente (incluindo sindicatos adaptados aos novos problemas, como o do consumo).

11. Desenvolvimento é questão de técnica e de espírito. A razão técnica, sozinha, não consegue o desenvolvimento, que é questão cultural e espiritual.

12. O desenvolvimento mundial tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus.