Há outros muros

Custódio. Tem nome de anjo. O nome que o protege não é suficiente para a tranquilidade materna que acorre sempre que choraminga, grita por alimento ou por atenção. Dorme sereno no berço de onde passará rapidamente para a caminha de grades. Passados dois anos, experimentará a cama grande, protegido por uma rede que o ampare de possíveis quedas.

Nas escolas por onde passa, continua a ter portas, redes ou grades que o amparam de possíveis quedas. Contesta. Não quer. Recusa as recusas para passar as portas. Abrem-se-lhe os portões de par em par, as redes e gradeamentos deixam de ter sentido. Não cumprem mais a sua função: não protegem, oprimem.

Tem nome de anjo. O nome que o protege não é suficiente para a tranquilidade materna. Mas já ninguém acorre quando ele chora, grita por alimento ou por atenção. Porque ele não quer. Porque ele não deixa.

Tem nome de anjo, que não quer usar, porque na moda estão outros nomes. Tem todas as certezas dos adolescentes: não é frágil, nem se vai tornar dependente dos amigos, do tabaco, da droga, do álcool, da internet, dos cafés. Não vai cair nas malhas de ninguém. O seu pai, também ele com nome de anjo, ensinou-lhe a enfrentar a vida, a encarar os outros. O que ele não sabe é que cresce tão depressa que as noites mal dormidas são substituídas por insónias maternas e paternas. Onde estará ele? Com quem anda? Vamos levá-lo para casa dos avós, mudá-lo de terra, de amigos, de colegas? Afastá-lo do perigo. As quedas são muitas.

Tinha cara de anjo, mas apenas responde ao nome de anjo que a mãe carinhosamente pronuncia.

Depois de dois anos de provação familiar, aceita dar outro rumo à sua vida.

………

Hoje, o seu filho tem nome de anjo. Vai-lhe contar que, um dia, foi a Berlim. Tinha 18 anos e a experiência continua actual. Foram três ou quatro horas de contacto com uma realidade desconhecida. Cruel. Chocante. Percebeu que os muros, as grades, as redes que oprimem não são as das escolas que ele frequentou. Essas estavam de pé para o proteger. Mas ele não dera oportunidade a ninguém para lhas explicar. Não deu oportunidade a si mesmo para perceber o que lhe diziam. Em Berlim, ficou atónito com um muro, um campo minado, as torres de vigia, as famílias divididas por paredes de tijolos, redes, gradeamentos. Regressou aos 34 anos, relembrando a emoção do dia 9 de Novembro de 1989: o muro caíra.

Hoje, conta ao filho que há outros muros que se erguem, graves atentados à liberdade e à vida. Esses, sim, são opressão. E espera que o seu filho, com nome de anjo, compreenda que a caminha de grades, a rede na cama e as escolas cercadas por gradeamentos estão lá para o ampararem de possíveis quedas. Porque o nome que o protege não é suficiente para a tranquilidade familiar.

Não é ficção

Encontrei-o no outro dia. Quando saí do carro estendeu-me a mão para a moeda. Já o tinha avistado mesmo antes de desligar o motor. O que fazer? O que lhe dizer? Cumprimentei-o: – Olá! Está bom? De cabeça baixa, disse que sim. – Então? Não me reconhece? Não sabe quem eu sou? – Não, desculpe, senhora. Não… Sempre de cabeça baixa, com vergonha.

Disfarcei os meus sentimentos e apresentei-me. – Fui sua professora. Não se lembra? – Ah! Sim. – e sorriu timidamente. Continuou: – Desculpe, mas a cabeça já não está boa. Já deixei a droga há um ano. Estou limpo há um ano. Há um ano que consigo não consumir, mas a cabeça… esqueceu tudo, baralha tudo… já não sabe nada… (Porque é que me contou? Não lhe perguntei nada!…) Continuou a falar. Humilhado, triste. Não me encarava nos olhos. Mas queria contar. Satisfeito por resistir. Contou sobre a sua vida, o desemprego, a família, a droga que lhe tirara a memória.

Rapaz bonito, em 5 anos transformou-se: a pele está baça, a cabeça não pensa, os olhos morreram. Alguma vez recuperará?

Quem falhou? Eu, ele, a família, a escola, a sociedade?

Qualquer semelhança entre este relato e a realidade não é pura coincidência.