Uma pedrada por semana Quando eu era criança não havia prendas de Natal aos montes, como há agora. A prenda era, normalmente, uma peça de roupa nova. A mãe, atenta ao que cada um precisava, guardava esse dia para lha comprar, mandar fazer e dar.
Lembro-me das pequenas camisolas de Inverno, quentinhas e com cores; dos calções novos que ia a correr buscar ao tio Joaquim Pio, o alfaiate lá da terra; dos sapatos, feitos à medida, com que sonhava, e que o tio Manuel sapateiro me enganava dizendo que, paciência, não tido tempo de os fazer. Estes eram os presentes úteis do Natal, da gente que tinha de contar os tostões, mormente quando os filhos eram cinco, como no meu caso, todos a gastar e ainda nenhum a ganhar.
Mas filhós havia sempre, e lá ia um pratinho delas para quem não as podia fazer, nem tinha família por perto. O Natal era de todos e não deixava ninguém de fora.
A festa maior, porém, era à meia-noite, na igreja, com o presépio, o Menino, as luzes a acender e a apagar, o madeiro, os homens a entrar e a cantar em coro, como nunca os via antes.
Não sou um nostálgico. Mas preciso desta recordação viva para me apaziguar cá por dentro, nestes natais barulhentos de agora. Parece que estamos sempre à espera que passem depressa, porque não trazem nada de novo que alegre, nem de presente que agrade.
Quem manda agora é a publicidade desenfreada, não a mãe carinhosa e atenta. E o Natal faz-se mais com a imaginação criativa das mães do que com os montes de brinquedos sofisticados e variados, que fazem sonhar antes e, logo depois, já fazem aborrecer.
