«Civilização da economia»

Questões Sociais Parece que a quadra natalícia recomenda mais a «civilização do amor» do que a da economia; até porque, dir-se-á, o mundo está farto da economia e das suas injustiças. No entanto, Bento XVI considera recomendável a evolução para a «civilização da economia» («Caritas in Veritate», nº. 38); até dá a entender que ela é indispensável para se alcançar a «civilização do amor» (ibidem, nºs. 39, 50, 51, 58 e 60). Porquê?

A economia é o instrumento por excelência de produção e distribuição de bens; portanto, o instrumento por excelência para o efectivo «destino universal dos bens» (cf. nºs. 39, 50 e 51). A transcendência deste objectivo obriga-a a relativizar-se. Primeiro, ela sabe que não basta o mercado para a solução dos problemas económicos (nº. 36); tornam-se indispensáveis o Estado e a sociedade civil (nº. 38). Depois, não bastam as dimensões económicas da existência humana; são indispensáveis todas as outras, nomea-damente as sociais, culturais, ecológicas e espirituais (nºs. 50 e 68-77). Mais profundamente ainda, segundo a encíclica, a verdadeira economia implica a metaeconomia, isto é, motivações não estritamente económicas, no sentido corrente (nº. 41).

Assim entendida, «a actividade económica não pode prescindir da gratuidade» (nº. 38), embora não se reduza a esta. O lucro e a gratuidade podem coexistir harmonicamente, tanto em empresas do sector privado com fins lucrativos como nas públicas e nas privadas sem fins lucrativos (nºs. 38, 41 e 46). Neste contexto, «é necessário que não se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens» (nº. 65).

A «civilização da economia» constitui um ideal ainda muito distante. Até parece utópica, neste momento; se porventura se concretizasse, começaríamos a ultrapasar o actual diferendo entre o capitalismo explorador e o colectivismo opressor. No entanto, podemos afirmar que já existem algumas linhas de tendência favoráveis, realçando-se: a empresa familiar; a«responsabilidade social da empresa», apesar de algumas contradições; a protecção social; o diálogo social, a negociação colectiva e a concertação social; a pujança do «terceiro sector» (sem fins lucrativos); a regulação de economia; as tentativas de construção de uma economia social de mercado…Grandes forças económicas, sociais e políticas opõem-se ao humanismo da «civilização da economia»; mas a respectiva causa não está perdida.