1 – O encontro terminara. O convívio final iria decorrer numa sala agradável e de certa pompa. Alguém, previamente, deu umas quantas indicações históricas. Tinha sido este o salão nobre do centro de formação: estávamos no que fora, e era de novo, o Seminário; mas, entretanto, sob a ocupação comunista, tornara-se o centro de acolhimento e formação dos “militantes” do Ocidente, que, a coberto de uma cooperação soviética, se preparavam para serem os pontas de lança da implantação do sistema nos seus países de origem.
2 – Sob o mesmo tecto, como tinham sido tão diversos os motivos da chegada! Como eram tão distintos os objectivos traçados durante a estadia nos mesmos lugares! Não pude deixar de reflectir sobre isso. Como também não me passou despercebido o contraste entre a fantasia de um exílio de lágrimas e privações e a realidade de uma vida marcada pelo privilégio da comodidade, em comparação com os naturais, privados tantas vezes do essencial, em favor da expansão da ideologia.
3 – Aqui se tinham abrigado, de facto, muitos jovens, respondendo ao apelo de Jesus Cristo, em busca de uma formação que lhes proporcionasse servirem aos homens os princípios e a vida de plenitude. Como aqui se acolheram tantos que, respondendo ao desafio dos mentores do marxismo-leninismo, procuraram escudar-se numa super-estrutura ideológica que subvertesse a humanidade, construindo a plenitude da história dentro dos seus limites, elegendo Deus como o seu inimigo preferido e, como consequência, todos os que não perfilhassem os mesmos ideais.
4 – Não quer dizer que não tenham incorporado – e incorporem ainda – as fileiras desse sistema muitos bem intencionados, chocados pelas tremendas desigualdades, sedentos de uma justiça social que devolva a dignidade a quem sempre a teve espezinhada por interesses egoístas e gananciosos. Como também é verdade que aqueles que deveriam ser testemunhas do amor fraterno, nem sempre são ou foram fermento de unidade e de fraterna entreajuda. Os motivos e os objectivos, passando pelas estruturas – e pelos centros de formação! – constroem-se essencialmente no coração das pessoas.
5 – Certo é que os resultados finais denunciam, em definitivo, os motivos e os objectivos. A história demonstrou, pela falência do sistema, que o marxismo-leninismo não é a solução para a humanidade. A história demonstrou que o figurino não seria, de modo nenhum, um bem para Portugal. Por isso, quando volta ao lugar de onde foi tirado um português valoroso, que se equivocou nos seus motivos e objectivos, sem deixarmos de reconhecer a envergadura do seu talento, não podemos senão lamentar que tamanha energia tenha percorrido caminhos ínvios.
Álvaro Cunhal marcou indelevelmente a história de Portugal. Um contributo que fez contraponto com muitos outros. Motivos e objectivos que o tempo vem demonstrando nos terem colocado à beira de um risco assustador.
