Fazer teologia – missão impossível? (I)

Revisitando o Vaticano II São peremptórias as afirmações da Dei Verbum: “A sagrada Teologia apoia-se, como em perene fundamento, na palavra de Deus escrita, bem como na sagrada Tradição (…), investigando, à luz da fé, toda a verdade contida no mistério de Cristo. (…) o estudo destes sagrados livros há-de ser como que a alma da sagrada Teologia” (DV 24).

É também claro o objectivo do labor teológico: “Assim, pois, com a leitura e estudo dos livros sagrados que a palavra do Senhor avance e seja glorificada, e que o tesouro da Revelação, confiado à Igreja, encha cada vez mais os corações dos homens” (DV 26).

Concluindo um primeiro tempo de “revisitar o Concílio”, deixaremos, em dois textos, algumas reflexões de Nuno Brás Martins,* um jovem teólogo português, que connosco partilha a nobreza e a responsabilidade da tarefa da Teologia.

1 – Fazer Teologia é um privilégio, uma tarefa essencial para a Igreja, para a própria vida do mundo. Mas uma tarefa complexa: uns esperam que seja solução mágica para os problemas da Igreja; outros acham-na inútil, porque parte do “preconceito da fé”; outros, porque perturba a vida eclesial ou porque é teórica.

2 – “O teólogo partilha com todos os baptizados a condição de redimido pela cruz salvífica de Cristo, tal como partilha as alegrias e tristezas do mundo com todos os seus contemporâneos. Como cristão, o teólogo não é nem melhor nem pior que qualquer outro ser humano; mas, como cristão, também o teólogo é mais responsável. Com efeito, não é em vão que se vive, de uma forma consciente, o drama da salvação do mundo no seio da Igreja, as questões que esse drama levanta e as dificuldades inerentes ao anúncio das respostas que a cruz de Cristo oferece.”

3 – É responsável diante de Deus. Escutou como os outros a Boa Nova, mas foi-lhe conferida a missão de “expressar a credibilidade do amor divino pelo mundo e em concreto por cada ser humano.” Sem qualquer revelação esotérica – a teologia parte da única e total Revelação em Jesus Cristo -, todavia, da sua linguagem no falar de Deus “dependem, em grande parte, os traços pelos quais o homem contemporâneo percebe o rosto do Pai.”

4 – É responsável perante a comunidade eclesial. Porque lhe cabe a tarefa de “mostrar a sensatez da opção de fé” – que não é sua, mas de toda a Igreja. Sobretudo, cabe-lhe a tarefa da comunicação no seio da comunidade crente. É que ele não fala para o conjunto dos teólogos; mas tem por missão ajudar a Igreja a perceber e conhecer aquilo que diz, tornando-se garantia de que a fé não é fruto de um qualquer discurso humano, mas encontra a sua fonte na Revelação.

(Continua no próximo número)

* NUNO BRÁS MARTINS, Introdução à Teologia, UCE, Lisboa 2003, pp.195-198.

Querubim Silva