Chicletes, bonés e MP3

Educar… hoje Um ano antes dos Táxi1 subirem ao palco com a canção “Chiclete”, em 1981, recordo que combinámos ir todos com uma chiclete na boca, para, na aula, mascarmos, sintonizados com o professor. Andávamos no oitavo ou no nono ano. Claro que a irreverência foi logo notada e as chicletes foram direitinhas ao caixote do lixo! Nunca chegámos a saber se o professor percebeu aquela ousadia… O que sei é que todos o desafiámos, porque nos parecia que a chiclete não condizia com o estilo nem com a função do professor. Aliás, nas aulas, éramos frequentemente alertados para as regras de boa conduta e boa educação.

Na altura, não havia telemóveis, nem os bonés eram moda. Hoje, estes elementos, acrescidos recentemente dos leitores de MP33, constituem um grupo privilegiado na linguagem estudantil provoca-tória. A este grupo, poder-se-ia juntar outro, o da indumentária, dos piercings, dos penteados “crista-de-galo” e afins. Mas aqui, como já chegam assim vestidos, penteados ou ornamentados, só se aconselha recato, e é tudo.

Quanto aos chicletes, bonés, telemóveis e MP3, ouvem-se réplicas muito interessantes:

– “Ó sôra2, ainda agora pus o chiclete! Sabe quanto custa?!!!”

– “Ó sôra, é sempre a mesma coisa! É sempre nesta aula! O meu cabelo está mal!”

– “Posso atender? É a minha mãe/é o meu pai.”

É aí que o professor tem de cumprir o seu papel de educador, fazendo o aluno pensar: a Escola é um espaço que ajuda a preparar para a convivência social e para o mundo do trabalho. A este tipo de discurso, não raras vezes ouvem-se respostas do género “Ainda falta muito para eu ir trabalhar.”

Em Abril, num debate aberto à comunidade escolar, no encerramento das Jornadas Técnicas da Escola Secundária Dr. Mário Sacramento, alguns empresários da região de Aveiro lembraram que o comportamento e as atitudes têm de ser desenvolvidos na Escola. Evidentemente que esta afirmação não traz qualquer novidade, mas o que é certo é que se deveria insistir em regras básicas, que parecem ter desaparecido do nosso manual de boas maneiras.

Não é fácil fazer perceber; às vezes até apetece deixar o miúdo brincar com o telemóvel, ou ter o boné na cabeça, ou ouvir música, desde que ele não perturbe a aula!… Mas, o que é certo é que, na sala de aula, esse tipo de atitudes perturba não só o próprio, mas também os outros. É preciso aprender a estar em grupo. Aliás, convém saber que, se se usar um telemóvel num exame, a consequência é radical: a anulação do exame. E, quando entrar no mundo do trabalho, não vai poder ouvir música, quando estiver a falar com o seu superior ou os seus subordinados; nem estar no escritório de boné na cabeça. Muito menos atender clientes mascando uma chiclete.

Esta reflexão pode parecer utópica; mas se acreditarmos que a Escola é uma travessia para a sociedade, que se faz em consonância com o mundo da família e com o dos amigos, é urgente que não se relegue a boa educação para os “outros” (Quem são eles?). E na Família, e nas catequeses? Por que é que os adultos não estão atentos à indumentária das crianças e dos jovens? (nem à própria?) Por que é que se relativizou tudo? Que tipo de comportamento se quer para hoje?

(Já agora um parêntesis: não sei como é que a mesada de um adolescente resiste a tantas despesas. Quando é que a contenção também vai chegar à sua bolsa? Se já não for por uma questão de boa educação… ao menos que seja por causa da situação económica que o país atravessa!)

E não vale a pena esconder-se atrás do stress para mascar chiclete. Beba um gole de água – ajuda a combater o stress. Não faz mal à saúde, nem é sinal de ausência de boas maneiras.