Em férias, redescobrir a eucaristia

“Fiquei maravilhada! A rotina havia-me feito perder o sentido dos gestos e das palavras. A eucaristia não me despertava qualquer gosto nem interesse. Cumpria o meu dever religioso por hábito. Agora, começo a entrar no mundo admirável dos símbolos e dos ritos. E sinto um impulso que espero sinceramente não fique por aqui. A eucaristia surge-me como uma realidade admirável, sempre apetecida e nunca suficientemente amada” – confessa, em tom de testemunho sereno, uma participante na iniciativa realizada recentemente em Caldas da Felgueiras, paróquia de Nelas.

Esta iniciativa faz parte dos programas da celebração do Ano da Eucaristia, proposto a toda a Igreja por João Paulo II e secundado pelos bispos nas dioceses. Visa aproveitar o tempo das Termas e proporcionar a quem deseje uma iniciação aos diversos elementos da celebração eucarística. Pretende abrir horizontes ao bem-estar integral, coroando-o com a “experiência” da oração em comum, com a compreensão da assembleia cristã, com a redescoberta de Jesus Cristo.

Felizmente pude participar na sua realização. O capelão das Termas dá a conhecer ao povo reunido na capela o que pretendia. Após a recitação do terço e antes da celebração eucarística, haveria uma “conversa familiar” sobre as diversas partes da missa em consonância com as orientações da Igreja. Seria necessariamente breve e versaria as orações e os ritos mais importantes.

Os presentes ficaram em silêncio, parecendo dar-lhe o benefício da dúvida. Em alguns rostos, começa a brilhar uma certa curiosidade. “Como precisamos de aproveitar bem o tempo, recitamos o terço sem invocações nem cânticos. Presidirá um de vós a quem pedirei; e eu darei início à reflexão sobre a eucaristia com um cântico breve”.

As partes seleccionadas foram surgindo ao longo dos dias, de acordo com a estrutura normal da celebração. O texto base é o dos preliminares do Missal Romano, que se comenta em estilo simples e tom informal. Lentamente, modifica-se o ambiente. Começa a surgir o ar familiar, o sorriso de quem se sente em casa, o à-vontade típico dos membros de família, o desejo de saber mais.

“Vedes este pano que cobre a estante das leituras? Que letras estão inscritas”? – pergunta para fazer a primeira reflexão. “São: Jesus, hóstia santa (JHS)” – responde uma voz feminina, que revela ares de haver sido catequista. “É isso mesmo” – acrescenta o capelão, satisfeito por dispor de um ponto tão acessível para desenvolver o tema inicial.

E sempre assim foi. Do visível ao invisível. Da cruz ao amor que simboliza. Da entrada do celebrante à constituição da assembleia e à manifestação de Cristo que preside. Da saudação inicial à relação divina, filial e fraterna entre os participantes. Do rito penitencial à aceitação do pecado pessoal e social. Da debilidade humana à glorificação divina. Da pequena assembleia à Igreja dispersa pelo mundo. Do pão, fruto da terra e do trabalho, ao Corpo do Senhor. Do colocar as mãos uma sobre a outra ao altar em que cada um recebe a comunhão. Do ide em paz ao assumir a missão, ao viver em diáspora no mundo, a construir a civilização do amor, a testemunhar a mais valia de ser cristão.

O visível constitui a “janela” de acesso ao invisível e dá-lhe a configuração humana possível. Por isso, deve ser o mais adequado e transparente. Só assim realiza a sua função. De contrário, torna-se um contra-sinal, um obstáculo que impede a revelação. E, neste sentido, há tanto a renovar: linguagens, gestos, ritos, posturas, músicas e vestes.

“O que mais me encanta é esta realidade sublime ficar ao nosso dispor em formas tão simples. Oxalá surjam outras iniciativas que nos ajudem a aprofundar esta iniciação tão proveitosa e que sejamos capazes de transmitir o que acontece em cada celebração” – conclui, com elevado acerto, um homem que, segundo disse, reavivou agora o seu amor à eucaristia, outrora desperto num Cursilho de Cristandade.