A Igreja no mundo contemporâneo (III)

Revisitando o Vaticano II O Vaticano II, na Gaudium et Spes, lança os fundamentos de uma antropologia cristã, a partir de uma concepção dinâmica da pessoa humana, que assenta a sua dignidade no facto de ser imagem e semelhança de Deus.

A sua realização integral resulta do desenvolvimento de todas as suas qualidades: a inteligência, que a faz participante da vida divina, co-criadora e artífice superior da criação; a sabedoria, que conduz ao conhecimento da verdade transcendente, ao sentido profundo das coisas, dos acontecimentos, pondo ao serviço da dignidade humana toda a ciência; a consciência, “lei que não deu a si mesmo, mas à qual deve obedecer”, que estimula a procura da verdade, que permite discernir e hierarquizar os valores; a liberdade, “um sinal eminente da imagem de Deus”, que lhe faculta actuar “conforme uma escolha consciente e livre, movido e determinado por uma convicção pessoal e não sob pressão de impulso interior cego ou de uma coacção exterior”.

Esta concepção da pessoa confere-lhe uma dignidade inviolável. “De todas as criaturas terrenas, só o homem é ‘pessoa’, sujeito consciente e livre e, precisamente por isso, ‘centro e vértice’ de tudo o que existe sobre a terra.” (ChL 37).

Os fundamentos desta dignidade, para nós cristãos, são, sem espécie de dúvida, de natureza teológica. Para além de criados à imagem e semelhança de Deus, marcados pelo eterno, transcendente, espiritual, seres constitutivamente orientados para a relação, à imagem da Trindade, fomos redimidos pela entrega de Jesus Cristo, que assim nos proporciona a vida em plenitude.

“A Igreja conhece, graças ao Evangelho, a verdade sobre o homem. Esta consiste numa antropologia que a Igreja não cessa de aprofundar e comunicar. A afirmação primordial desta antropologia é que o homem é imagem de Deus, que é irredutível a uma simples partícula da natureza ou a um elemento anónimo da cidade humana. (…) À luz de tal verdade, o homem não é um ser que possa subordinar-se aos processos económicos e políticos, mas são estes mesmos processos que devem estar ordenados e submetidos ao homem.” (João Paulo II, Discurso à III Conferência da CELAM, Puebla 1979).

Estes parágrafos da GS (11 a 22 sobretudo) continuam a ser um desafio actualíssimo ao testemunho desassombrado da Igreja em favor do Homem, na defesa intransigente da dignidade humana, única forma de credibilizar o Evangelho que anunciamos.

Querubim Silva