Nêgo, sim

Direitos Humanos Há cerca de umas semanas atrás tive o privilégio de visitar três comunidades de afro-descendentes – chamadas de “terras quilombolas”. Durante a vigência da escravatura no Brasil, os negros conseguiram organizar-se em áreas de resistência ao domínio dos seus senhores. Quando os escravos, vindos de África, conseguiam fugir ou por alguma razão conseguiam a liberdade – a alforria – agrupavam-se em regiões onde, organizados com índios, mestiços e muitos brancos que defendiam a causa da abolição, lutavam contra o regime esclavagista vigente.

Esses agrupamentos de resistência negra ficaram conhecidos como quilombos ou mocambos e, alguns, foram abrigo para mais de um milhar de indivíduos. Havia-os, também, que não eram tão numerosos e até nem tinham localização fixa. Muitos desses quilombos subsistiram mesmo depois da abolição da escravatura e foram locais de experimentação de um colectivismo negro. Outros, mercê das dificuldades que a população negra continuou a sentir após a abolição, desagregaram-se, tendo as terras sido tomadas por fazendeiros que, sob a aparência da legalidade, aproveitaram para explorar a mão-de-obra de ascendência afro.

Actualmente, as áreas remanescentes desses refúgios negros sobrevivem como locais de preservação da cultura de “preto” e dos ideais sociais que os afro-descendentes sempre defenderam.

Desafortunadamente parece que uma espécie de estigma faz com que as populações quilombolas vejam perpetuadas violências que mais parecem localizadas nos primórdios da colonização europeia. Duas das comunidades que visitei – Bom Sucesso dos Pretos e Saco das Almas – estão a ser alvo da especulação fundiária do agronegócio. Na primeira dessas comunidades, uma empresa de alumínio denominada Margusa apossou-se de vasta área no entorno do antigo quilombo. Agora, naquelas matas, impera o eucalipto, plantado para servir na combustão dos fornos da fábrica, com impressionantes danos para o ecossistema: o riacho onde a população costumava ir buscar água para consumo domiciliário, hoje não tem caudal suficiente na época seca.

Na outra comunidade, Saco das Almas, um vazio legal permitiu que os descendentes das antigas famílias de senhores de escravos vendessem as terras para os monocultores da soja. A comunidade de afro-descendentes vê-se, hoje, a braços com uma situação irónica: a terra foi declarada área quilombola pelo governo, mas a área cultivável não está disponível para as necessidades dos camponeses negros.

Como esperança, resta o exemplo de uma outra área quilombola, onde o querer da população e a cooperação das autoridades está a fazer nascer um local de preservação da memória histórica.

Em Santa Cruz, um projecto, bem estruturado, está a restaurar tanto a velha casa de engenho como a antiga senzala. Ao recriar a história, desafia-se a população afro-descendente a preservar a lembrança da resistência negra e ensinam-se as novas gerações a terem atitudes de tolerância. Assim, evitam-se os erros do passado e, naturalmente, surgirão – como me aconteceu – muitas crianças negras que, honrando com orgulho a riqueza das suas tradições, afirmam abertamente: “nêgo, sim!”.