“O Comércio do Porto”. Morreu-me o quarto filho?!

Depois de uma longa caminhada ao serviço da comunidade, morreu o mais antigo órgão da comunicação social de Portugal continental, “O COMÉRCIO DO PORTO”, embora ainda se dêem passos para que ele possa ressuscitar.

Não tenho palavras para registar no meu testamento esta hora difícil, não só do possível desaparecimento de uma instituição nacional, mas também de quantos irão passar pelo duro golpe do desemprego. E ainda dos que foram seus e meus leitores, correspondentes e colaboradores, ao longo de quatro décadas.

Neste momento de reflexão e de saudade por um filho já adulto, que ajudei a sustentar ao longo da minha vida, recordo que, pelo “COMÉRCIO” e pelos seus leitores, sulquei mares e céus, serras e vales, fazendo-me ao largo por paragens do ditador Pinochet, pelo Golfo Pérsico, pelos bidons-villes, em Paris, pelas favelas do Brasil e da Venezuela. Também lembro que andei pelos domínios de Samora Machel, de Fidel de Castro, (a minha última aventura com o saudoso João Paulo II) e por Marrocos.

No Sínodo dos Bispos, em Roma, ou em peregrinações jornalísticas, na beatificação do primeiro cigano, o Zeferino, na República Checa, no muro de Berlim ainda por derrubar ou nas estepes alentejanas e nos Algarves, trabalhei sempre a pensar na melhor informação para quantos liam, dia após dia, “O Comércio do Porto”.

Também andei pelas serras do Gerez, onde contactei com povos de aldeias perdidas ou enterradas pela barragem; e vivi dramas de famílias de bombeiros que morreram nos trágicos incêndios das florestas de Águeda e de Armamar. Mas não posso esquecer o 25 de Abril, o contragolpe do 25 de Novembro nas matas de Maceda, Ovar, e o enclausuramento de Spínola em terras do Buçaco, onde foi assinada a histórica descolonização.

Entretanto, a minha memória recorda os esforços das populações que conduziram às elevações a vilas e cidades de Avanca, Espinho e Gafanha da Nazaré, bem como a abertura da via rápida de Aveiro a Vilar Formoso, com o aperitivo dos Grandes Prémios de Ciclismo, promovidos pelo “COMÉRCIO”, através da sua Delegação em Aveiro. Nessa altura, entrou-se em Espanha, por Vilar Formoso, numa prova de solidariedade ibérica!

A história de Aveiro dos últimos 40 anos não se faz sem se rebuscar o manancial que existe (se é que ainda existe!) nas páginas do ora agonizante “O Comércio do Porto”. E o autor deste testemunho, ainda esperançado em melhores dias, não pode esquecer a destruição, num dia de nevoeiro, da primeira Delegação de “O Comércio do Porto”, na cidade dos canais.

Seja através das gentes de terras de Bento Carqueja (Oliveira de Azeméis) ou da cidade invicta, de associativismo ou cooperativismo, espero que este mais do que centenário diário não morra, antes continue ao serviço dos portugueses e de Portugal.

Neste momento de recordações e de levantar ânimos, não posso deixar de evocar figuras gradas que amaram o seu “Comércio”, como a Família Seara Cardoso e seus filhos, Manuel Filipe e José Miguel. E outros distintos directores, como Manuel Teixeira, Joaquim Queiroz, Costa Carvalho, Silva Tavares, Manuel de Almeida… todos grandes jornalistas.

Da Delegação de Aveiro, olho com saudade para gente generosa, que ao jornal se entregou, como Jesus Zing, Brissos da Fonseca, Altino, Florbela, Neves, Mário Rocha, Cardoso Ferreira, o saudoso Capitão Duarte e ainda outras figuras hoje ligadas ao mundo da banca.

De outros sectores, evoco a família Bandeira, o Belmiro Ramos, o Artur Santos, o Gonçalves, o João Maia (de Aveiro), o aveirense, escritor e jornalista João Sarabando, tal como o professor Fernando Martins, que nos ajudaram a erguer e a manter incólume a Filial de Aveiro de “O Comércio do Porto”, durante tantos e tão frutuosos anos de trabalho jornalístico.