Em cima da linha Constatamos que em todas as religiões do mundo há desvios e distorções. Se atendermos àquilo que é a estrutura fundamental, se olharmos aos princípios e valores objectivos e perenes sobre os quais se constrói a caminhada de vida e de fé dos seus seguidores, fácil é reconhecer que, dada a fragilidade humana e a incapacidade de aceitação, estamos permanentemente a correr riscos de fragilizar e relativizar tudo e todos.
Sabemos que, na Igreja Católica, – a nossa – o culto aos santos é tradicionalmente desfocado. Quero dizer que, para muita gente, o santo se torna Deus e Deus transforma-se apenas num qualquer santinho. O santo, se bem entendida a religião, é apenas um estímulo, um herói da fé, um modelo, e, como tal, ponto de referência para uma meta final: DEUS. De outra maneira, é simples paganismo.
Acontece algo semelhante com os padres. Umas vezes, fazem com que tudo gire à sua volta: o padre centra tudo em si, controla tudo, é ele e só ele; outras vezes, incapaz de criar referências, permite e colabora para que os outros o tornem o centro da religião. Duas situações bem agra-dáveis, mas pouco eclesiais e nada evangélicas.
Sem dúvida, que os agentes de pastoral têm de ser verdadeiros pólos de congregação, nunca, porém, para si próprios e por si próprios, mas para tudo conduzir a Deus. Parece-me, e posso estar enganado, que, muitas vezes, o centro de atracção somos nós e não a razão que nos conduz: DEUS.
O sacerdote não é mais do que um instrumento, que se pretende de boa qualidade, para o Artista trabalhar e realizar uma obra, também ela, de qualidade. Embora humano, inteligente e responsável, ele está nas mãos do Mestre, para colaborar. O santo, como o padre, que se quer santo também, é um meio e nunca o fim.
O essencial do cristianismo não está no padre, no Bispo ou no Papa, mas em Cristo. “Para mim viver é Cristo”, dizia o apóstolo Paulo. Não entendo, por isso, que se faça uma guerra com a proposta de saída de um padre, qualquer que seja a paróquia ou o motivo. Respeito a amizade, a sensibilidade e a generosidade das pessoas em relação às qualidades ou ao trabalho feito, respeito o apoio incondicional dos paroquianos aos projectos levados a cabo, respeito a dedicação, a entrega e a generosidade com que nós, os padres, nos empenhamos até ao sangue. Porém, o sentido de Igreja deve sobrepor-se a tudo e a todos. Se tal não acontecer, então estamos a trabalhar por conta própria, e fácil e rapidamente entraremos pelo caminho das seitas e do fanatismo.
Na verdade, parece-me, e peço desculpa se estou errado, que não é ao povo, nem sequer ao povo cristão comprometido, que pertence decidir sobre “o nosso padre”. (O “nosso padre” não existe; existe um padre da Igreja ao nosso serviço.)
E porquê? – Alguma paróquia, alguma vez, nos tempos que correm, foi ouvida ou consultada sobre o padre para lá nomeado? (Falo como padre e como quem já passou por várias situações!) As paróquias não são nossas propriedades nem o padre é propriedade de nenhuma paróquia. A verificar-se essa consulta popular, também ninguém devia ser nomeado sem os paroquianos darem o seu assentimento. E como poderiam eles dá-lo a alguém a quem nunca antes conheceram? Ou será que temos de entrar pelo campo das eleições, depois de acirradas campanhas eleitorais? Dessa forma, as pessoas escolheriam aquele que melhor lhes pudesse satisfazer as vontades, tal como fazem com os políticos. Seria uma barbaridade: em vez de apóstolos tornar-nos-iam joguetes em suas mãos!
Mas, se assim fosse, sorte teria eu, porque talvez ninguém me quisesse. Uns porque me conhecem; outros pelo que ouviram dizer de mim, e lá ficava eu nas minhas quintas.
E que é que aconteceria naquelas paróquias em que a acomodação dos padres é um compadrio claro com a passividade da comunidade e um falacioso “saber viver com o povo”?
Os santos não falam fisicamente, e, por isso, deixam-nos fazer todas as asneiras. Ao contrário, os padres falam, e, contudo, podem mas não querem impedir os disparates!
Quando os padres são mais importantes que a Igreja ou a religião… e quando os santos são considerados superiores a Deus… podemos ainda augurar algo de bom para a Igreja neste início de milénio?
Só se for com o Espírito Santo!… De outra forma, não iremos a parte nenhuma.
