“Sacrifícios”

Questões Sociais 1. Na crise social em que nos encontramos, tem sido frequente a utilização da palavra “sacrifício”, no singular e no plural. Com o recurso a tal palavra, afirma-se que é necessário aceitarmos a estagnação económica e, porventura, a dimi-nuição das nossas condições de vida. Relativamente a alguns grupos sócio-profissionais, tem-se defendido que devem renunciar a uma parte dos seus “privilégios e prerrogativas”, reais ou supostos.

O apelo ao sacrifício parece visar três objectivos funda-mentais: 1º reduzir os défices das contas públicas; 2º relançar o investimento e aumentar as exportações; 3º garantir condições de sustentabilidade, a longo prazo, da economia portuguesa e do Estado social.

2. Olhando para o conjunto da sociedade portuguesa, observamos nela uma estratificação muito complexa. São muitos e muito diversificados os estratos, grupos ou classes sociais. E, daí, os sacrifícios não atingem igualitariamente cada um deles; há grupos que são mais sacrificados do que outros; e há uns que se dispõem a aceitar os sacrifícios melhor do que outros, muito embora (verdade seja dita) não se conheça nenhum claramente disponível para a aceitação.

3. Os grupos mais contestários têm sido os que são remunerados pelo Estado, realçando-se até os que auferem remunerações mais altas e têm garantida a estabilidade no emprego. Estes grupos invocam a seu favor a respectiva dignidade e o quanto lhes é devido, menosprezando os outros grupos e aquilo que devem ao país.

No extremo oposto, situam-se os grupos mais pobres. Já viviam mal antes da crise, vivem agora pior, e têm praticamente a certeza de não melhorar muito depois da crise. Os membros deste grupo vivem perdidos no anonimato e no abandono. Evidentemente, não podem fazer greve até porque muitos deles não têm emprego. E também não podem fazer manifestações, até porque não se encontram minimamente organizados.

Perguntar-se-á, a propósito de tudo isto: haverá uma concepção cristã de sacrifício, diferente da que nos marca actualmente? É o que veremos no próximo artigo.