1 – “Tomem todos os cristãos consciência da vocação particular e própria que têm na comunidade política, pela qual devem brilhar pelo exemplo, enquanto são obrigados pela consciência do dever e servem ao bem comum, de modo que demonstrem também por factos, como pode harmonizar-se a autoridade com a liberdade, a iniciativa pessoal com a solidariedade e as exigências de todo o corpo social, a unidade oportuna com a proveitosa diversidade. Acerca da organização da realidade temporal, reconheçam as legítimas opiniões divergentes entre si e respeitem os cidadãos que, mesmo associados, as defendem honestamente”. – GS 75.
2 – Em plena campanha eleitoral, em vésperas de eleições autárquicas, cristãos e homens de boa vontade podem encontrar neste texto conciliar indicações de perfil de candidatos e critérios de avaliação de programas/propostas. A Igreja, como tal, não tem que se envolver em campanhas partidárias; não deve dar indicações de voto, em grupos ou candidatos. Mas tem o direito e o dever de sugerir critérios de apreciação de pessoas e propostas, porque, perita em humanidade, pode iluminar a percepção profunda destas realidades, a partir da lógica da encarnação, isto é, da luz que irradia do Verbo feito Homem.
3 – Desde logo, o essencial do perfil do candidato é que se manifeste, nele, de maneira clara, a vocação, no contexto da comunidade que integra, a ser animador da política. Capaz de assumir que a sua vida tem de ser exemplar na consciência do dever e na sensibilidade ao bem comum. Quem não é capaz de perceber com humildade as suas qualidades e as suas limitações, dificilmente terá consciência de que pode ou não servir para determinado lugar. E, então, em vez de um (a) vocacionado (a) para a política, será um (a) arrivista à espreita de uma ocasião de “trepar”. Sem consciência de dever, facilmente se tornará tirano (a), impondo aos outros os fardos que não mexe com um dedo.
4 – Do bem comum muito poucos têm a noção. Aquilo que concorre em tudo para o bem de todos e para o bem total da pessoa humana, isso é que é o bem comum. Muitas vezes, o bem da maioria não coincide com esse bem comum: porque deixa de lado aspectos essenciais da pessoa toda, porque esmaga alguns em proveito de outros (mesmo que sejam muitos).
Temos de procurar elegíveis que “demonstrem por factos”… Este tempo é sempre ocasião de alucinantes palavras, de anestesiantes discursos! E a prática dos que prometem, dos que se propõem?…
5 – Indispensável é que se apresentem como quem tem autoridade, a qual, se vem da sua prática, se coaduna perfeitamente com a liberdade. Com a liberdade de opinião e com a liberdade de iniciativa. Mais: deseja a sadia diversidade, pessoal e de grupos sociais, sempre que honestamente apresenta sugestões e iniciativas que enriquecem a comunidade.
