Tem a palavra cultura no seu programa político?

A pergunta reuniu num debate, durante três horas, candidatos à autarquia de Aveiro com responsabilidades no campo da cultura. Foi na Livraria O Navio de Espelhos, em Aveiro, na noite de 26 de Setembro.

Ora, a primeira dificuldade, quando se fala de cultura, é, precisamente, o que quer dizer “cultura”. Culturas de elites? De massas? Erudita ou popular? Teatro, dança, cinema, literatura, artes plásticas e música? Ou, também, modos de pensar, património histórico, artesanato? E quem é politicamente responsável, então, pela cultura? Apenas o pelouro da Cultura ou também os da Juventude, Educação e Património (pelo menos)?

Por outro lado, parece claro que há uma dimensão local, regional e nacional das políticas culturais. E que, no nível municipal, se colocam dilemas entre cultura rural e urbana (embora cada vez mais diluídos), entre artistas profissionais e amadores, entre apoios a associações formalizadas e grupos informais ou criadores individuais, entre apoios financeiros e de meios, entre empresarialização ou não de estruturas (como o Teatro Aveirense), entre cidade e universidade, entre decisões centralizadas e partilhadas (através, por exemplo, da Carta Municipal de Cultura, “um processo e não um produto”), entre uma cidade com um centro único ou policêntrica…

A certa altura dizia um interveniente: “O que nós queremos é tudo. A cultura é tudo”. O que talvez tenha relativizado as diferenças políticas para congregar todos os intervenientes num ponto: a criação de públicos. “A cultura aprende-se”. Mas como criar públicos com apetências culturais? Falou-se na divulgação e, claro, no papel da imprensa regional, mas esqueceu-se a principal questão: o preço. Há boa cultura barata (grátis, como no caso da Bienal de Cerâmica); mas ir ao teatro ou a um espectáculo musical é muito caro para a bolsa comum (mas não tão caro como ir a um jogo de futebol!). Ora, ainda que alguns possam dizer que, enquanto não houver muito público, os preços não podem descer, o mais certo é que, sem preços baixos, nunca haja públicos grandes. E para isso é necessário política.

J.P.F.