Entre a mudança e a perda de significado

Igreja Diocesana “Há muito lixo ou coisas secundárias na vida da Igreja”. Dita noutro contexto, esta afirmação poderia ser de alguém que se opõe à Igreja Católica. Mas não. Foi proferida por D. António Marcelino, Bispo de Aveiro, na Abertura do Ano Pastoral – assembleia que reuniu no Seminário de Aveiro, no dia 5 de Outubro, o Bispo de Aveiro e os padres, religiosas, leigos e leigas mais empenhados nas comunidades cristãs.

D. António abriu os trabalhos com uma comunicação em que sublinhou a necessidade de uma evangelização “criativa, inovadora e actual”, para que a Igreja seja significativa no contexto das “mudanças profundas e rápidas a que está sujeita a sociedade”. D. António apontou como principais mudanças sociais a ruína da autoridade e da maneira de a exercer, a democratização do ensino, a abertura de fronteiras, o acesso generalizado às novas tecnologias que tornam a comunicação imediata, a globalização dos problemas. Estas e outras mudanças, fazem de uma afirmação ouvida na rua, entre duas senhoras – contou o Bispo de Aveiro –, o reflexo do espírito da época actual: “Os nossos valores já não são os dos nossos filhos nem dos nossos netos”. “Hoje, quem comanda o comportamento das pessoas não é a Igreja”, disse o prelado, dando exemplos de outros tempos, os de cristandade. “O toque das Avé-Marias já não se faz. Tirar o chapéu em frente à igreja é raríssimo, se é que ainda acontece em algum sítio”.

A modernidade e a pós-modernidade, novas formas de pensar e de agir, entraram na vida das pessoas e desfizeram os “sonhos de cristan-dade” que alguns poderão ainda alimentar, mas que “não respondem ao conjunto da sociedade em que vivemos”, disse D. António.

Perante este panorama, qual poderá ser o papel da Igreja? O Pastor da Igreja aveirense apontou alguns caminhos. O primeiro não será “pôr tudo em causa”, mas antes “distinguir o essencial e permanente do provisório e transitório” na vida e acção da Igreja. A mudança eclesial passa também por “aprender a lidar com o pluralismo”. “Respeitar o pluralismo não quer dizer que tudo esteja certo, mas que as pessoas têm direito às suas opções”. D. António sugeriu ainda a criação de um “observatório permanente que registe a mudança”. Essa função de “ler e reflectir a realidade, ver o que está a acontecer, não se faz à margem dos leigos” e pode ter lugar nos conselhos pastorais paroquiais (conjunto de pessoas que em cada paróquia aconselham o padre sobre a vida da comunidade).

D. António resumiu a acção da Igreja nos tempos actuais, apelando à frase evangélica que diz que é necessário tirar do tesouro da fé coisas novas e velhas e concluiu: “O mundo vai mudando. Nós temos de mudar para sermos fiéis aos dons de Deus”.

Ecos da assembleia

No ecos da comunicação do Bispo de Aveiro surgiram alguns comentários de padres e leigos de “apreciação de novas situações”. Foram referidos o avanço das seitas e do ocultismo, para “saciar o vazio espiritual” e a “procura de Deus às aranhas”, isto é, uma “busca desenfreada”, que não se satisfaz nas proposta das Igrejas tradicionais mas em espiritualidades como a da New Age. Foi apontada a “antropologia insuficiente”, que ainda persiste em certa linguagem da Igreja, como aquela que separa corpo e alma, e sublinhada a necessidade de a Igreja mudar palavras, expressões e modos para que os jovens a ouçam. Houve quem referisse que “o problema está dentro de nós; a Igreja joga à defesa” ou apontasse a “importância de aceitar e viver a sociedade mediática”. Um padre referiu aquilo que pode ser um “cisma submerso”: a Igreja aponta um agir na moral sexual e económica, mas os cristãos vivem de outra forma, ignorando-a. E um leigo pediu à Igreja uma “ajuda aos pais”, que na educação dos filhos se vêem ultrapassados por outras instâncias.

J.P.F.