Karl Ranher

O leitor Pergunta – Grandes Teólogos – 6 “Pensemos esta possibilidade. A palavra ‘Deus’ acaba por desaparecer, sem vestígios, sem que se note uma lacuna como resto, sem que seja suplantada por outra palavra que nos interpele da mesma maneira. [Pensemos que] Daqui para a frente, a palavra ‘Deus’ já não coloca uma pergunta ou, melhor, a pergunta por excelência, se não quisermos dar ou ouvir esta palavra como resposta. O que sucederá então, se se tomar a sério esta hipótese do futuro? Então, o ser humano não fica situado diante do todo da realidade como tal, nem perante o todo uno da sua existência como tal” (Karl Rahner, Curso Fundamental sobre a Fé).

‘Deus’ é a mais indefinível das palavras. Apercebemo-nos disso, se pensarmos um pouco nela para além do uso que vulgarmente (levianamente?) dela fazemos. A partir da ‘simples’ meditação sobre a existência dessa palavra ou sobre a possibilidade e consequências do seu desaparecimento, Karl Ranher introduz o leitor no essencial da sua teologia (que nada mais procura ser do que católica – como afirmou um dia em entrevista): o ser humano perante o mistério. Quanto mais o ser humano apresenta questões fundamentais, aprofunda a sua experiência de vida, usa conhecimentos científicos, mais o mistério aumenta. Ora, o cristão apela para Deus e descobre a sua liberdade numa relação positiva (gratificante) com este mistério. Tem, por assim dizer, a capacidade de ouvir Deus. Os canais não estão cortados, porque há uma autocomunicação de Deus (a “graça incriada”) a agir na história humana, mesmo entre os não cristãos, mesmo entre os [que se dizem] ateus, que, nesse sentido, poderiam ser chamados de “cristãos anónimos”.

Essa “graça incriada” permite pensar que há, entre todos os seres humanos, mais a unir do que a separar, e que o Espírito Santo age muito para lá das portas da Igreja, e que a união dos cristãos separados é possível, e que o diálogo inter-religioso pode acabar com a divisão e ódio entre povos e culturas. Essa “graça incriada” é o antídoto para a solidão do ser humano deixado a sós consigo mesmo, é a janela de oportunidade contra a condição natural da humanidade, que, se a conseguir-mos pensar sem Deus (e os seus sucedâneos como a Verdade, o Bem, a Beleza, o Amor) é a solidão sem remissão, o desespero absoluto (noutros tempos, diríamos “o inferno”).

Esta é uma tentativa de resumir o pensamento teológico do padre jesuíta Karl Rahner, que nasceu em Friburg im Breisgau, Alemanha, a 5 de Março de 1904, e morreu em Innsbruck, Áustria, a 30 de Março de 1984. Foi perito no Concílio (1962-1965) e escreveu mais de 4000 títulos (incluindo as suas “Investigações Teológicas”, em 23 volumes, a direcção da enciclopédia “Sacramentum Mundi” e a fundação da revista “Concilium”). Com o actual papa, então destacado teólogo Joseph Ratzinger, escreveu pelo menos “Episcopado e primado” (1961) e “Revelação e tradição” (1965).