Um cenário de requiem

1. O recente Dia dos fiéis defuntos e a recordação dos 250 anos da ocorrência do Terramoto de 1755 caracterizaram os primeiros dias de Novembro. Dois momentos comemorados em pleno Outono, tendo a morte e a destruição como pano de fundo, mas com um horizonte de renovação e reconstrução, de vitória da Vida.

2. O diagnóstico da P. foi implacável: ainda que numa fase incipiente, a sua mama direita tem cancro. Pela primeira vez na vida, uma notícia obriga as suas convicções existenciais profundas a fazerem um up grade, a evoluir numa determinada direcção: a sua vida, o seu corpo – a nossa vida, o nosso corpo – fazem parte de um movimento finito que tem na morte o momento culminante. Viu claramente à sua frente aquilo que, num livro recente [Senge, P., Scharmer, O., Jaworski, J. & Flowers, B. (2005). Presence. An Exploration of Profound Change in People, Organizations, and Society, Nova Iorque, Currency Books], alguém designa por cenário de requiem. Para a P. este cenário revelou-se um contexto importante de transformação pessoal: decidiu relacionar-se de maneira mais serena com os seus pais – com quem mantinha relações tensas e conflituosas -, redescobriu o valor da meditação como instrumento que favorece o sentido da vida, consolidou ainda mais os seus vínculos familiares e fez com que ela se revelasse aos amigos uma mulher consistente e capaz de absorver o embate que a vida lhe estava a propor.

3. O cenário de requiem como contexto de transformação exprime-se na seguinte pergunta: «Se soubermos que amanhã (para a semana/daqui a um mês) morremos, o que muda, hoje, na nossa vida?». A perspectiva da morte anunciada a breve prazo que alterações traz à vida de uma pessoa? Para criarmos este cenário, porém, é necessário operarmos um desbaste prévio: desafiar a convicção inconsciente de que somos imortais, de que vamos andar por cá para sempre. O que não é nada fácil. É que ter a morte à nossa frente provoca um medo aterrador e a ilusão da imortalidade é uma defesa implacável contra ele.

4. Talvez seja por este motivo que ainda há quem se dedique ao exercício cego e leviano das intermitências da morte: imaginemos que a morte não existe… imaginemos que «no dia seguinte ninguém morreu» (primeira frase do último livro de José Saramago, As intermitências da morte). Paradoxalmente, a boa notícia é que a morte existe mesmo e que ser humano implica ser mortal. E que no dia seguinte há sempre alguém que morre. E que as nossas energias devem ser utilizadas não na negação da morte, mas na busca de um sentido para a vida. A P. precisou de um cenário de requiem, precisou da morte à sua frente para despertar. Precisou deste choque existencial para que a sua vida se transformasse. Não será o que todos nós precisamos?

5. Não é uma apologia da morte. A sua evidência ultrapassa defesas e oposições. É sim afirmar que o segredo da morte está na vida transformada pelo bem e pela beleza, numa vida concentrada no essencial, na redescoberta e actualização do que é realmente humano. E ser humano é ser capaz do Divino, do Eterno, do Vitorioso sobre todas as mortes. É receber a vida como um dom, para a entregarmos na morte com um sopro de agradecimento.