Santa Teresa desejou ser missionária. “Tenho vocação de apóstolo! Gostaria de percorrer a Terra, pregar o teu nome, plantar a tua cruz gloriosa” – escreveu na sua auto-biografia espiritual, “História de uma Alma”. E Pio XI proclamou-a em 1927 “Padroeira das missões” (com Francisco Xavier).
Mas, de certeza, que não esperava que um século após a sua morte os seus restos mortais fossem aos lugares a que ela não foi. “Gostaria de anunciar o Evangelho ao mesmo tempo nas cinco partes do mundo e até nas ilhas mais remotas… Gostaria de ser missionário não só durante alguns anos, mas ter sido desde a criação do mundo e continuar a ser até à consumação dos séculos”. Em 1994, os restos mortais de Santa Teresa saíram do Carmelo e peregrinaram pelos santuários franceses. Atraíram multidões. Depois, passaram pelos carmelos da França. Avivaram a fé. A seguir, passaram pela Europa, América, Ásia… num total de quase meia centena de países.
Por onde passa, Teresa testemunha o amor de Deus e provoca a fé. Em Portugal, “há já relatos de conversões”, diz Frei João Costa. “Em Espanha, conta o carmelita do convento do Carmo de Aveiro, as relíquias passaram por metade das dioceses e arrastaram multidões. Os outros bispos, ao verem o sucedido, pediram que também passasse pelas suas, mas já não era possível” devido às viagens programadas.
Santa Teresa, que enquanto carmelita ficou fisicamente limitada às paredes do convento, tornou-se finalmente missionária. O seu desejo-profecia realizou-se.
Agora chega à diocese de Aveiro, depois de já ter percorrido todas as outras de Portugal continental (da cidade dos canais, seguirá para as Ilhas dos Açores).
Em Setúbal, aquela que em vida rezou pelo condenado à morte Pranzini, o seu primeiro filho espiritual, visitou uma prisão. Como o relicário não passava numa das portas, o director da prisão mandou deitar abaixo a parede. Nada detém Teresa. Bem o soube Leão XIII, que se deixou convencer pela adolescente, corria o ano de 1887. Como Teresa tinha apenas 14 anos, teve de obter a autorização papal para entrar para o Carmelo. Entrou no ano seguinte.
Na sexta-feira passada, o carmelita Alpoim Alves Portugal desvendou numa conferência preparatória da recepção das relíquias alguns dos segredos de Teresa. “Trazia o Evangelho cosido no hábito, sobre o coração”, afirmou. A espiritualidade da santa de Lisieux estava centrada em núcleos evangélicos como a paternidade de Deus, a centralidade da misericórdia divina (num tempo em que predominava uma espiritualidade que pedia que recaíssem sobre si os castigos de Deus), a humildade evangélica, e a caridade (“Amando, compreendo”). Daí que Pio XI tivesse proclamado: “A existência de Teresa é evangelho vivo, e a sua palavra é palavra de Deus”.
Nos próximos dias os cristãos aveirenses poderão sentir-se evangelizados pela grande missionária que foi (é) Santa Teresa de Lisieux.
