O que se aprende a venerar as relíquias Aqueles ossos são restos, são rasto, são prova. São restos duma mulher que serviu escondidamente a Igreja, rezou pelo mundo, aspirou à santidade, à união com Jesus. São restos de quem teve uma alma com história, em cujo enredo entrou Deus como protagonista principal, a fim de a usar como se usa um instrumento maravilhoso, para ensinar a pedagogia do amor a uma cultura que decidira já não necessitar de o aprender. São rasto discreto da inundação do Espírito de Deus no frágil vaso de barro que foi a Petit Thérèse. São prova para quem não chega ver sem ver, para quem precisa de ver já não apenas com a fé nem com os olhos mas também com as mãos, e são ânimo até para quem já nem forças tem para pedir provas.
Aqueles ossos pequeninos são relíquias, mas não exigem a adesão da fé. São sinais que não têm valor em si, que não apontam para si mas para Quem a chamou à vida, à fé e à eternidade. As relíquias de S. Teresinha ainda hoje nos falam porque ontem ela privilegiou a atenção e o cuidado das pequenas coisas; e porque também por entre as ninharias da vida e das pequenas coisas anda e se revela o Senhor.
Aquelas relíquias são sinais de fogo que provam que a morte não vence o amor. E nos levam para além da praça do encontro, reenviando-nos para todos os lugares e horizontes, onde possamos fazer ao mais pequenino dos irmãos como se o fizéssemos a Cristo.
Aquelas relíquias são o último resto daquela pequena vida que sofreu e amou, cantou e rezou, duvidou e seguiu em frente, se consagrou e entregou tão extraordinariamente. Aquelas relíquias são fragmentos de luz cuja presença no meio de nós falam que «Tudo é graça», e gritam por intercessão e alívio para os cansados da vida, os dizimados pela dor, os prostrados pela injustiça, os surpreendidos pelo sem-sentido, os encarcerados no labirinto das dúvidas, os bêbados de escuridão e de noite sem fim.
Que se aprende na escola de Teresinha, junto dos restos do seu corpo santo? Aprende-se a seguir Jesus suceda o que suceder, aconteça o que aconteça, surpreenda-se quem se surpreender, perturbe-se quem se perturbar. Aprende-se a tudo dar sem medida e dar-se a si mesmo sem olhar a quem, a ouvir a calada voz interior que nos engrandece com sua presença e nos empurra mar adentro, como quando o vento leste suavemente impele as velas da barca.
Frei João Costa, carmelita
