Lima Vidal e Santa Teresinha

O facto de o nosso Correio do Vouga informar, no seu último número (pg. 2), que D. João Evangelista de Lima Vidal “tinha uma relíquia de Santa Teresinha”, sugeriu-me que escrevesse algo sobre este tema.

Em primeiro lugar, não devo esquecer que o ilustre aveirense, sobretudo após a canonização de Santa Teresa do Menino Jesus em 1925 e a declaração oficial como co-padroeira das Missões, foi profundamente tocado pela pessoa e pela mensagem espiritual da humilde carmelita, falecida com 24 anos, em 1897. E tanto assim foi que, decorrido algum tempo, acrescentou no seu brasão episcopal, até aí apenas com os atributos episcopais e com as referências ao próprio nome, a alusão a Santa Teresinha (cruz e rosas), além da menção ao Sagrado Coração de Jesus.

Entre os ministérios que desempenhou ao serviço da Igreja, Lima Vidal também foi arcebispo-bispo de Vila Real de Trás-os-Montes, desde 1923 até 1933, e superior geral da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas (hoje, Sociedade Missionária da Boa-Nova), nos anos de 1930 a 1940. Sobretudo nesta última qualidade, precisou de se deslocar a Roma, por diversas vezes, para ouvir os pareceres e os conselhos de alguns responsáveis da Santa Sé, do cardeal secretário de Estado de Sua Santidade (Mons. Eugénio Pacelli) e do próprio Sumo Pontífice Pio XI – o “Papa das Missões”.

Uma dessas deslocações aconte-ceu no verão de 1931. Depois de várias entrevistas nas Congregações Romanas, na manhã do dia 13 de Julho ocorreu o encontro com o Papa. Neste momento, limito-me a transcrever o que o próprio D. João Evangelista anotou, em caderno de apontamentos, arquivado na Cúria Diocesana de Aveiro:

– O camareiro, abrindo a porta do gabinete, anunciou ao Sumo Pontífice: – ‘Il vescovo di Vila Real’. O Santo Padre estava absorvido na leitura de um livro estranho, indicando com uma pequena faca o ponto em que deixava a leitura. À minha voz, logo que cheguei à sua presença, Pio XI levantou a cabeça e saudou-me afectuosamente. Começou a audiência. Eu expus os fins da minha ida a Roma, as graças que suplicava, de um modo especial a de um auxílio, visto não poder ser dispensado por agora da direcção dos Colégios [da Sociedade Missionária]. O Papa perguntou-me se já tinha falado nisso. Eu respondi que sim, na Secretaria de Estado. Ele fez um gesto de possibilidade. Eu julgava que ele já estivesse conhecedor de todas as coisas. Falei-lhe na situação do director geral e na necessidade de pessoal para os Colégios. O Santo Padre ficou especialmente contente, quando lhe li a carta do Padre Matéo e lhe contei alguma coisa acerca do Semi-nário de Vila Real. Levantou-se com agilidade e disse-me: – ‘Vou dar-lhe alguma coisa para o Seminário’. E, abrindo um armário, entregou-me um relicário de Santa Teresinha, que eu agradeci efusivamente. O Papa acrescentou: – ‘Quando estiver pronto o outro Seminário, dar-lhe-ei também outro relicário para ele’. Mas, quase a seguir: – ‘Não, o melhor é levá-lo já’. E deu-me, num estojo, outro relicário não menos rico. Entretanto, ele tocava a campainha e entrava a minha irmã com a sua companheira [ambas religiosas dominicanas].

Era lindo o quadro, conforme no-lo retratou o arcebispo:

– O Sumo Pontífice – estávamos no dia mais aceso da luta gigantesca da Acção Católica – tinha não sei que ar de fadiga no semblante; a cabeça pendia-lhe um pouco para o ombro direito e a mão pousava molemente sobre o livro que ele tinha diante de si. As religiosas ajoelharam ambas junto do Vigário de Cristo, que as acolheu com o sorriso triste de quem tem a alma cheia de preocupações e de sombras. Tudo era branco: a veste do Pontífice e o hábito daquelas filhas.

A notícia que nos deu o Correio do Vouga fundamentou-se no apontamento colhido do “site” santateresinha.org: – D. João Evangelista de Lima Vidal era grande devoto de Santa Teresinha; recebeu do Papa uma relíquia da Florinha de Lisieux. Eu, por minha parte, aqui apenas desejei esclarecer a infor-mação, completando-a com um ligeiro comentário testemunhal: – De facto, o venerando arcebispo, primeiro prelado da Diocese de Aveiro após a sua restauração, com quem convivi durante alguns anos, guardou no seu espólio algumas relíquias que lhe foram oferecidas; todavia, foi sobretudo alguém que colheu e procurou viver a mensagem espiritual dos respectivos Santos e Santas – o que certamente o ajudou a seguir, a seu modo, o caminho de Jesus Cristo.