“Muitos cristãos ainda não descobriram que a acção pela justiça faz parte do Evangelho”

Entrevista com Graciete Marques, presidente da LOC/MTC de Aveiro Graciete Marques, casada, dois filhos, enfermeira no Hospital de Aveiro, é militante da LOC/MTC (Liga Operária Católica – Movimento de Trabalhadores Cristãos) há cerca de 20 anos, tendo feito um percurso na JOC (Juventude Operária Católica) desde a adolescência. Há um ano é presidente diocesana da LOC/MTC.

Como surgiu a LOC?

A LOC nasce em Portugal em Julho de 1935, com a aprovação dos seus primeiros estatutos, e tendo como assistente o Pe Abel Varzim. Desde os seus primeiros tempos, a LOC é concebida como um organismo destinado ao apostolado operário envolvendo um programa “destinado a reconduzir os trabalhadores à posição social a que têm direito”, tendo como canal privilegiado de acção o jornal O Trabalhador…

…dentro do espírito da Acção Católica…

Sim, a LOC/MTC define-se como aquilo a que chamamos um “movimento especializado da Acção Católica”, que, pela vivência e pelo seu testemunho da novidade da mensagem Cristã no seio dos trabalhadores, com as suas organizações e no respeito pela sua autonomia, se situa na dinâmica da vida operária. Somos um movimento de cristãos adultos, marcados pela condição de vida operária, preocupados com todas as situações de injustiça, marginalização ou escravidão do homem. A LOC participa na caminhada solidária dos trabalhadores que buscam a justiça e a sua promoção colectiva.

Qual a situação da LOC/MTC na diocese de Aveiro? Onde está presente?

Não somos um movimento de massas; estamos presentes em Cacia e na Gafanha da Nazaré, agrupando 3 equipas de base, com 30 militantes. Contamos com cerca de 150 simpatizantes, que regularmente participam nas nossas actividades.

Há um défice de compromisso social por parte dos cristãos?

Pensamos que sim. Achamos que muitos cristãos ainda não descobriram que a acção pela justiça e a participação na vida do mundo nos aparece claramente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, que o mesmo é dizer, da missão da Igreja, em prol da redenção e da libertação do género humano de todas as situações opressivas, ficando-se apenas pela participação eucarística dominical.

É difícil o compromisso cristão no mundo laboral?

Sim. Porque nem sempre somos compreendidos, mesmo dentro da própria igreja, nas opções que temos pelos mais pobres e desfavorecidos.

A LOC/MTC é uma voz incómoda dentro da Igreja?

Ao assumirmos a opção pelos mais pobres e desfavorecidos, pelo anúncio explícito da Boa Nova de Jesus Cristo, dando voz aos que não têm voz, temos consciência de que podemos ser incómodos para com aqueles que estão instalados dentro da Igreja. No entanto, é nosso propósito ser membro construtor da própria Igreja.

É opinião corrente que o sindicalismo está cada vez mais fraco. Há menos gente sindicalizada. Por vezes, até se acusa os sindicatos de não defenderem verdadeiramente os direitos dos trabalhadores…

Gostaríamos de esclarecer que a LOC/MTC não é um movimento sindical, é um movimento que desperta e forma consciências para a participação de uma cidadania activa à luz do Evangelho.

Mas é afectada pela falta de associativismo, não é?

O contexto político-social que se vive hoje, quer em Portugal quer no Mundo, em que predomina o “medo”, precariedade e insegurança, do qual os trabalhadores são as principais vítimas, explica em grande parte a progressiva falta de associativismo quer nos sindicatos quer noutras organizações.

Temos consciência de que apesar de alguns erros na acção sindical, os sindicatos têm um papel muito importante e insubstituível na defesa dos direitos dos trabalhadores, contribuindo para o bem de toda a sociedade. Por isso, o nosso apelo para que os militantes e trabalhadores em geral participem nas suas estruturas.

Como vê a LOC/MTC o panorama do mundo laboral na actualidade?

É preocupante. As desigualdades cada vez mais acentuadas entre pobres e ricos, em que apenas o que interessa é o capital, estão a destruir o Homem e a sua forma plena de realização – o trabalho.

É preocupante, quando se acentua a desumanização, o desemprego, o trabalho precário, o trabalho infantil, os salários baixos e em atraso, as fracas condições de trabalho, a falta de protecção social, etc.

O que é preciso para fazer um grupo LOC/MTC? Há apoios?

Que existam pessoas disponíveis para fazer uma caminhada de formação cristã e operária, centrada na revisão de vida.

Os apoios partem dos próprios militantes com a ajuda da equipa diocesana.

Bilhete de Identidade da LOC/MTC

Objectivo: “O fim da LOC/MTC é essencialmente apostólico, isto é, participa na construção da Igreja, pelo anúncio explícito da Boa Nova de Jesus Cristo, pela santificação dos seus militantes, pela formação das consciências de acordo com os critérios do Evangelho, procurando em toda a sua acção descobrir e celebrar o mistério de Jesus Cristo presente na vida dos trabalhadores e informar de espírito evangélico o meio operário”. Tem por metodologia a Revisão de Vida Operária (R.V.O.): análise das realidades preocupantes, suas causas e consequências; julgamento à luz do Evangelho; descoberta de acções que possam ajudar à construção de um mundo onde o homem se sinta mais Homem.

Lema: “Testemunhar a Esperança, Construindo um Mundo mais Justo e Humano”, para o triénio 2004/7, e “ O futuro do trabalho e a sua implicação na Família”, no presente ano.

Presença na diocese: Cacia e Gafanha da Nazaré

Assistente diocesano: Pe Luís Barbosa

Presença no país: Dioceses de Braga, Porto, Viseu, Aveiro, Coimbra, Guarda, Santarém, Leiria, Lisboa, Setúbal, Évora e Funchal, num total de 1300 militantes em 110, equipas com cerca de 5000 simpatizantes. A LOC/MTC faz parte do MMTC (Movimento Mundial de Trabalhadores Cristãos)

Publicações: Jornal “Voz do Trabalho”; Boletim Militante; Infor (revista do M.M.T.C.)

Site: http://loc-mtc.eclesia.pt Email: loc@sapo.pt

Contacto da LOC/MTC de Aveiro: Secretariado Diocesano, Rua José Estêvão,50 3800-201 Aveiro