Livro Já não há infâncias assim. Tardes até ser noite passadas nos montes, banhos no rio, brincadeiras com rãs e fuga às cobras, merendas “de reis” ou “de deuses” no meio do campo (feitas de broa, presunto e azeitonas), histórias de bruxas e de lobisomens contadas nos serões de inverno (“acontecimentos ‘verdadeiros’ que se deram em tempos idos”), ou do “caçador a quem foi diagnosticada uma gravidez pelo tamanho do seu ventre”, histórias do colégio interno para onde a autora foi estudar após a quarta classe…
Já não há infâncias assim, porque, mesmo que o interior não estivesse a ficar despovoado – em muitas aldeias, como se vê pelas escolas que encerram, não há um grupo de quatro ou cinco crianças para alimentar uma aventura minimamente desafiante –, os tempos são outros. As crianças não podem andar sozinhas até altas horas na rua. A insegurança, real ou imaginada, não o permite. E os telemóveis estragam qualquer ousadia de liberdade. O imperativo da saúde e da higiene não deixa brincar com animais do campo ou tomar banho em águas que não tenham a bandeira azul.
Por tudo isso, um adulto acima dos trinta anos revê-se facilmente nas histórias de Maria Cacilda Marado, passadas numa aldeia dos arredores de Castro Daire, na serra de Montemuro, nas margens do rio Paiva. E como são curtas, abre-se o livro e lê-se logo três ou quatro de uma assentada, ao contrário do que a autora escreve na introdução: “Admito que os leitores possam não gostar de ler estes Retalhos, por não corresponderem às suas expectativas”. Correspondem e superam. E o que escreve no prefácio a estes 33 reta-lhos Manuel Raimundo, marido da autora, portanto, alguém cuja imparcialidade não estaria acima de qualquer suspeita, será certamente notado por qualquer leitor: “Simplicidade, (…) fluidez e (…) transparência verdadeiramente surpreendentes. Agradável surpresa”. Isso explica que já tenha sido feita uma segunda edição deste livro.
A autora
Maria Cacilda Marado, natural de Ponta da Ermida, Castro Daire, vive em S. Bernardo, Aveiro. É licenciada em História, tem o curso do Magistério Primário e recentemente concluiu o mestrado em Comunicação Social e o doutoramento em Ciências da Educação. Passou por todos os graus de ensino, tendo leccionado no ensino superior nos últimos três anos. Actualmente colabora com a Academia dos Saberes e dá aulas de português a imigrantes.
J.P.F.
Retalhos da minha infância
Autora: Maria Cacilda Marado
Padrões Culturais Editora
156 páginas
