Óscar Gaspar falou sobre Igreja e Política nos 40 anos da Gaudium et Spes “Passados 40 anos, devemos estar optimistas. O Concílio teve visão, e os políticos não se portaram tão mal quanto isso”. A opinião é de Óscar Gaspar, assessor do Primeiro-Ministro para os assuntos económicos. Comentando as afirmações sobre a vida política da constituição Gaudium et Spes (documento do Concílio sobre a Igreja no mundo contemporâneo), o economista ligado ao PS considera “pacíficas” as afirmações conciliares sobre o direito de participação na política, a valorização dos corpos intermédios na vida pública (grupos, associações, IPSS, etc., a separação Igreja/Estado, a liberdade dos católicos nas opções políticas ou a não identificação da Igreja com uma ideologia política. Antigo líder juvenil na diocese de Aveiro, natural de Vagos, formado em Economia pela Universidade do Porto, Óscar Gaspar falava no ciclo de debates que a paróquia da Glória tem vindo a promover sobre a Igreja e o Mundo, como forma de comemorar os 40 anos do documento mais importante para entender e repensar a missão da Igreja na sociedade.
Optimismo sobre política e políticos
Com uma visão confiante da actividade política, o assessor ministerial sublinhou, em primeiro lugar, as “profundas transformações” que o mundo atravessou desde 1965, lembrando acontecimentos como o Maio de 68, com uma visão diferente da política e da sexualidade, a chegada à Lua, a CEE, a Queda do Muro de Berlim, a Internet, o Euro, a emergência da Índia e da China, e alterações significativas como a redução da natalidade, o aumento da esperança de vida, o aumento da escolaridade, os problemas ecológicos, etc., para de seguida apresentar alguns líderes como Nelson Mandela, Yitzahk Rabin, Bill Clinton, D. Hélder da Câmara ou o cantor Bono. “Por muito mal que se diga da política, há homens que se transcendem”, disse, apontando o caso do cantor Bono, activista em favor dos países subdesenvolvidos, que há dias foi convidado a dirigir por um dia um jornal inglês e assinou um texto intitulado “Sou uma testemunha: o que podemos fazer?”. “Isto é, claramente, política”, disse Óscar Gaspar. “É como dizia aquela canção: Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”, acrescentou.
Sublinhando o ideal da justiça como essência da actividade política, o economista, afirmou, a certa altura que “política é resistência à resignação, porque é possível fazer mais e melhor”, e citou a encíclica de Bento XVI, para notar como política e fé se tocam, mas não se confundem (ver afirmações em destaque).
A Igreja tem de perder privilégios?
Num momento de saudável provocação, tendo citado a frase da GS, no ponto em que afirma que a Igreja não põe esperança em privilégios da sociedade civil e que até os recusa se isso for contra o testemunho (nº. 76), Óscar Gaspar interpelou os dois padres da Glória. Pe Manuel João referiu que o que foi tido como privilégio, nos impostos, por exemplo, foi apenas um ressarcir dos bens retirados à Igreja pela República. Pe João Gonçalves, por seu turno, deixou claro que a Igreja não precisa de “nenhum privilégio, porque está para servir”, nem há qualquer problema em perder o lugar no protocolo do Estado, por exemplo. No entanto, diz o pároco da Glória, “deve o trabalho [social] da Igreja ser anotado, apreciado e apoiado, não por causa da Igreja, mas por causa daqueles que ela serve”.
J.P.F.
Igreja, Política e Justiça
“A justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. Um Estado que não se regesse segundo a justiça reduzir-se-ia a uma grande banda de ladrões (…) A Igreja não pode nem deve tomar nas suas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível. Não pode nem deve colocar-se no lugar do Estado. Mas também não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça. Deve inserir-se nela pela via da argumentação racional e deve despertar as forças espirituais, sem as quais a justiça, que sempre requer renúncias também, não poderá afirmar-se nem prosperar. A sociedade justa não pode ser obra da Igreja; deve ser realizada pela política. Mas toca à Igreja, e profundamente, o empenhar-se pela justiça, trabalhando para a abertura da inteligência e da vontade às exigências do bem”
Bento XVI, Deus Caritas Est, excerto do n.º 28.
