Ameaça ou sintoma e oportunidade?

A propósito de “O Código da Vinci” Estreou na semana passada, nos cinemas, “O Código da Vinci”, filme baseado no romance homónimo de Dan Brown que em Portugal vendeu de 470 mil exemplares e no mundo terá vendido 40 milhões.

O filme segue a par e passo o livro, que, como foi algumas vezes referido no Correio do Vouga, tem basicamente o seguinte enredo: Há um segredo que vai mudar a história da humanidade. A Opus Dei manda matar, mas não consegue impedir que se venha a conhecer aquilo que a Igreja escondeu durante séculos. E o que a Igreja escondeu é: Jesus e Madalena casaram e tiveram filhos. A protagonista do livro/filme é descendente directa de Jesus e Maria de Magdala.

Obviamente, a obra é uma ficção. Uma ficção que os críticos têm denegrido enquanto obra literária (talvez por ter vendido muito), mas que os leitores têm devorado como poucas. A linguagem é simples; os capítulos são curtos; o enredo, misturando história, religião, arquitectura, pintura, matemática e segredos é fascinante; e o tema central, tocando em Jesus, toca no centro da cultura em que vivemos. Mais: a ficção é construída com factos, meio-factos e não-factos, provocando frequentemente um sentimento de indignação a quem está minimamente por dentro dos assuntos. Indignação, mas também admiração pelo engenho do autor. Pode não ser grande literato, mas sabe prender com mestria o leitor, relacionando os factos mais improváveis.

Pouca polémica, afinal

Alguns sectores da Igreja (não só Católica) não vêm com bons olhos a obra (passemos a designar assim o livro/filme), pelos claros erros históricos que encerra, mas a verdade é que a polémica nem tem sido tanta como desejariam os promotores do filme, para além de a crítica ter sido péssima. Num jornal diário português, escreve-se: “‘O Código da Vinci’ já começou a incendiar multidões”. Onde? Não se diz, porque a resposta é: em lado nenhum. Uma leitura atenta de vários jornais permite descortinar dois casos de insignificante polémica: uns deputados italianos que contestam o filme e umas manifestações na… Bielorrússia. Muito pouco para quem desejava uma polémica a sério.

A grande questão será saber até que ponto uma obra deste tipo pode influenciar negativamente as pessoas que a vêem/lêem. O Cardeal Angelo Amato, sucessor de Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé, diz que o livro é um “romance perversamente anticristão”, enquanto uma sondagem do jornal La Croix, diário católico francês, diz que 30 por cento dos franceses acreditam que as teorias de Dan Brown são verdadeiras. E os portugueses?

“Uma coisa é a ficção, outra a realidade”

À porta de uma sala de cinema de Aveiro, o Correio do Vouga interrogou algumas pessoas que assistiram às primeiras exibições do filme, todos jovens, supostamente mais vulneráveis à ficção. Mário Tavares, 23 anos, de Aveiro, gostou do filme. “Está como o livro”, disse. Educado na fé católica, este tripulante de cruzeiro não é praticante, mas reconhece que “se estudar mais um bocado” pode “refutar as ideias do livro”. Diogo Vieira, 17 anos, estudante de Oliveira do Bairro, é católico e viu o filme porque gostou muito do livro. Interrogado sobre se as ideias do livro/filme põem em causa a sua fé, responde sem hesitações: “De forma alguma. Não tem nada a ver. Uma coisa é a ficção, outra a realidade”. Opinião parecida tem Rita Santos, 18 anos, da mesma localidade bairradina, estudante: “Não li o livro, mas gostei do filme. Não é por causa de um filme que se deixa a Igreja”.

Pe Júlio Franclim Pacheco, professor de disciplinas bíblicas em Coimbra e no Iscra (Aveiro) disse ao Correio do Vouga que não vai ver o filme. “E o que diz a quem lhe pedir uma opinião?” – perguntou-lhe o Correio do Vouga. Ao que ele respondeu: “Se é influenciável e quiser ficar confuso, vá ver. Se não é influenciável, pode ver [ou ler] à vontade”. Para este biblista, autor de um artigo sobre este romance no nº 2 da Praxis, revista do Iscra, o que pode induzir o leitor em erro é o aviso que Dan Brown coloca no início do seu livro: “Todas as descrições de obras de arte, edifícios, documentos e rituais secretos que aparecem neste romance são exactas”. Não são, como variados artigos e livros têm demonstrado. Mas seduzem o leitor. Tal sedução coloca uma questão à Igreja, muito bem definida nas palavras de Constança Cunha e Sá, nas páginas do Público (19-05-06): “A ‘verosimilhança’ que grande parte dos leitores encontrou no livro (…), para além de mostrar o grau de estupidificação e de superficialidade a que se chegou, entre nós, confirma uma confrangedora ignorância sobre o cristianismo e as suas origens. O problema não está no desconhecimento dos evangelhos gnósticos e dos textos heréticos (…); está no desconhecimento absoluto de tudo; dos evangelhos gnósticos e dos evangelhos canónicos; dos textos heréticos e dos textos ortodoxos; da história da Igreja e da doutrina católica”. Ter-se-á a Igreja apercebido disto?

Na próxima semana:

Os erros histórico-teológicos do Código

Dar a volta por cima

Como algumas vozes têm vindo a afirmar, “O Código da Vinci” talvez não seja uma ameaça, mas um sintoma de que algo está mal: a maior parte das pessoas aprendeu muito pouco com a sua educação cristã. Ora, em alguns casos, o “Código” está a transformar-se numa oportunidade de aproximação à Igreja Católica, a Jesus Cristo e até à Opus Dei. Na Inglaterra, os responsáveis de uma catedral onde foram rodadas algumas cenas aplicaram o dinheiro do aluguer numa exposição e num ciclo de conferências. Nos EUA, os bispos católicos criaram um opúsculo, um site (www.jesusdecoded.com) e um documentário sobre “o verdadeiro Jesus”. Em Portugal, o Opus Dei, que no filme é o “mau da fita”, parece, paradoxalmente, beneficiada pela exposição. Pe José Rafael Espírito Santo, vigário-geral do Opus Dei dizia na semana passada à revista Visão: “Para já, tem subido o número de pedidos de informação sobre o Opus Dei, sobretudo na Net”.