João Rodrigues Gamboa nasceu em 1939, em Peraboa, Covilhã. Licenciado em Filologia Românica, foi professor de Francês. É casado, pais de três filhos, avô de cinco netos. Há 37 anos que se dedica à pastoral litúrgica. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Lança no próximo sábado o livro “Nas asas da Liturgia e outros voos”. De que fala?
JOÃO GAMBOA – O livro resulta de um trabalho ao longo de 37 anos na liturgia, sete na paróquia da Glória e 30 em S. Bernardo. É um apanhado do meu esforço em dar à celebração da Eucaristia um carácter festivo e de qualidade, procurando a participação da assembleia no que diz respeito ao canto. A primeira parte contém muitos subsídios para a celebração dominical – não para todos os domingos – e para algumas festas e solenidades. Algumas dessas festas são momentos circunstanciais, como foram, por exemplo, a restauração da Sé, no Domingo de Ramos de 1976, a posse do novo pároco, então o P.e João Gonçalves, ou a homenagem ao P.e Arménio Costa.
Recolhi também actos penitenciais, uns elaborados por mim, outros, do Secretariado da Liturgia, publicados nos anos 80 no Correio do Vouga. A segunda parte tem reflexões sobre a liturgia e a necessidade de formação para o bom canto litúrgico – hoje a diocese tem ou-tros instrumentos neste campo.
Na minha acção, procurei sempre fugir ao populismo, isto é, às cantiguitas que inflamam muito o exterior, mas não dizem nada ao interior. Procurei ser fiel ao pensamento e prática da igreja: cântico com qualidade de música, qualidade de texto e boa execução, quer do coro quer da assembleia.
Considera que hoje as comunidades cristãs estão a participar melhor na celebração da Eucaristia?
Não conheço a generalidade das comunidades. Mas, por um ou outro motivo, tenho participado em algumas celebrações e creio que há dois movimentos: um que vai no bom caminho, mesmo com cânticos simples mas de qualidade; e outro, que eu critico, que vai mais pelo exterior, muito barulho, percussões. Uma vez vi alguém que utilizava a pedaleira do órgão para fazer ritmo. Pode entusiasmar exteriormente, mas não diz muito interiormente, nem tem relação com os textos da liturgia. Numa celebração, cantou-se um cântico de Janeiras como cântico de entrada. Não sei se há alguma fundamentação antropológica para certos cânticos em celebrações com crianças e adolescentes… Que futuro terá isto? O que se prevê a seguir? Quando é que se dá o salto para a melhor liturgia?
Quais são actualmente as suas funções na liturgia?
No princípio, as minhas funções eram difusas. Mais tarde, dirigi os Pequenos Cantores da Glória [coro infantil], depois de o P.e Arménio sair da Glória. Nos anos 80, Dirigi um grupo que chegou a ter bateria e instrumentos Orff [instrumentos típicos da sala de aula, geralmente de percussão, com excepção da flauta de bisel], toquei órgão e dirigi coro e assembleia. Na actualidade, em S. Bernardo, participo em duas celebrações: a vespertina, que tem um coro, e a das 8 da manhã de domingo, que não tem coro. Esta é a assembleia que canta mais, porque sente que tem de participar. Desde há seis/sete anos, animo a celebração dominical da Misericórdia. Convidaram-me; vi, por exemplo, que em Julho se cantava o “Avé Maria”, em domingos sem qualquer relação com Nossa Senhora; e aceitei, para dar alguma qualidade ao canto, relacionando-o com as leituras. Procuro sempre ensaiar uns cânticos com a assembleia, mesmo que sejam conhecidos, porque isso anima e desperta.
Dedica o livro a vários padres, nomeadamente, Mons. Aníbal Ramos, com quem estudou Liturgia, João Paulo Ramos e Fausto de Oliveira, que integraram a equipa de liturgia da Glória, e aos párocos com que trabalhou, Arménio e João Gonçalves, na Glória, e Félix de Almeida, Alberto Nestor e Luís Barbosa, em S. Bernardo.
Dedico-lhes porque tenho este dever, estando também no Ano Sacerdotal. Terá essa dimensão na apresentação. Convidei estes sacerdotes, excepto, naturalmente, o Mons. Aníbal Ramos e o P.e Arménio, que já faleceram. O coro cantará “Tu es sacerdos” [“Tu és sacerdote”], como sinal de afecto cristão e eclesial por com esses sacerdotes. Sem sacerdotes não há liturgia, não há igreja. “Tu es sacerdos” foi composto por mim em 1979, para os Pequenos Cantores, quando o P.e Fausto [actual pároco de Ílhavo] foi ordenado presbítero.
Preocupa-se com a qualidade do canto litúrgico, que é também um objectivo da EDMUSA. Tem alguma relação com a escola diocesana de música litúrgica?
Embora desde os anos 70 e 80 defenda formação sistemática feita por gente que sabe, não estou relacionado com a EDMUSA. A minha relação com o Prof. Domingos Peixoto [um dos responsáveis da EMDUSA] nasce de eu ser representante da Igreja da Misericórdia na Associação Musical Pro Organo, de que ele era presidente até há poucos meses [actualmente é Edite Rocha]. Esteve muito ligado à restauração do órgão de tubos da Misericórdia, levada a cabo no tempo do Dr. Amaro Neves. Fez um trabalho muito meritório à frente da Pro Organo.
Este livro, sendo edição de autor, é um investimento seu. Custa-lhe dinheiro.
Sem dúvida. Paguei sempre do meu bolso a edição dos livros e poucos são vendidos. Ofereço aqui e acolá. Deixo em bibliotecas, ofereço a amigos. É uma característica minha. Vou proporcionando alguns eventos culturais e isso dá-me felicidade. Sou um bocadinho independente e não gosto de pedir nem de insistir junto de editoras.
O livro que vai ser lançado custa 10 euros. Estará à venda na sessão de lançamento. O que for vendido reverte para a paróquia da Glória. E também vai estar à venda na Livra-ria Santa Joana.
Podemos dizer que tem duas paixões, a liturgia e a literatura. O que o leva a escrever?
Apesar de licenciado em Filologia Românica e de ter sido professor de Francês, dediquei-me à liturgia desde 1971/72. Só mais tarde, numa circunstância muito especial senti necessidade de me virar para dentro, para equilibrar o meu mundo interior. Comecei então a escrever um diário. Mas a gente nunca diz tudo. O primeiro livro chamou-se “Invocação de Deus”. Foi publicado em 1993, com um atraso de 20 anos, porque era o que eu na juventude sentia necessidade de dizer. No fundo, o meu trabalho tem sido com a palavra, quer na poesia quer na liturgia. Trabalho com a palavra escrita e a palavra musicada.
Na sua escrita, sente a influência de autor?
Miguel Torga influenciou-me muito. Quando lemos os textos dele, ficamos com a ideia de que era um homem de fé, embora não a assumisse. Tem nostalgia daqueles que têm fé e que a vivem. E é um homem que vive muito ligado à terra e às paixões e dificuldades do ser humano. A mulher dele foi minha professora em Coimbra. Gosto também de Eugénio de Andrade, mas o seu nome não teve influência no meu pseudónimo.
Qual é a origem do pseudónimo Eugénio Beirão, com que assina as obras literárias?
Eugénio é uma homenagem à minha mãe, que se chamava Eugénia. Já faleceu. “Beirão” refere-se à Beira, a minha província, a Beira Baixa, aquela que considero mais Beira. Sou de Peraboa, no concelho da Covilhã, embora tenha saído de lá aos dez anos, para o seminário dos Missionários da Boa Nova. O pseudónimo é uma maneira humilde de assumir a obra, porque nunca me considerei nem escritor nem compositor.
Quantos livros publicou?
No domínio da literatura, são 11 (poesia, contos e crónicas). Tenho depois mais quatro que escrevi enquanto fui presidente da ARM – a associação dos antigos alunos da Sociedade Missionária da Boa Nova. E dois sobre a liturgia: “Cânticos para a liturgia”, de 2000, e o que vai ser lançado no próximo sábado.
Tem projectos para o futuro?
Penso num livro de memórias, num outro que reúna o que foi escrito sobre as minhas obrazitas e textos que eu escrevi sobre personalidades da literatura e da música e num romance – chamemos-lhe assim. Poderá ter como título “Um anjo na cidade”, com quadros sobre a cidade, um romance de amor em que uma jovem acaba por optar por um caminho de interioridade, e uma terceira parte sobre um sem-abrigo poeta, alguém que existiu, que eu encontrava quando ia para a escola. Mas isto ainda são ideias, mais na cabeça do que nos papéis.
Lançamento: “Nas asas da Liturgia e outros voos”
O livro “Nas asas da Liturgia e outros voos” é lançado no dia 17 de Abril, às 16h, no Espaço-Museu da Sé de Aveiro (entrada pela Av. 5 de Outubro). A obra será apresentada pelo P.e João Paulo Henriques. O prof. Domingos Peixoto intervirá a propósito da música litúrgica e serão lidos alguns excertos. Participa também o Coro de Milheirós de Poiares.
No mesmo dia, às 21h30, a obra será apresentada no Centro Paroquial de S. Bernardo.
